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Efeméride

Pierrot le fou

 

Queria fazer filmes para registrar como a noite se mostrou daquela vez, como a lua se exibia e como o vento soprava. Como as pupilas se dilatavam e contraíam, como as garrafas e os copos se acumulavam. Como aquele banco parecia solitário. Como foi a última parada, como a noite se resumiu e como a luz do dia entrava pela janela. Como estava a manhã e como a tarde acabava.

Mas só mesmo com palavras se afirmaria que aquela foi a última vez que aquilo aconteceria.

Surrogates

Ryan Thomas Kenny

Somos todos
substitutos
Buscando
substitutos.

Tentativas de
reviver algo
Talvez perdido.

Reverberação.

Espectro de
uma ideia
Talvez nunca
vivida.

Substituída.

Sem tradução

Nicholas Hugues

Ilunga (tshiluba) – uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.

Os olhos permaneceram deitados sobre o ponto final enquanto a mente saiu rumo a divagações. Visitou lugares abandonados, colocou retratos em movimento, tirou a poeira dos discos encostados, voltou trazendo o gosto amargo à boca.

Fechou os olhos, tirou os óculos e tentou esfregar o cansaço com os dedos. O telefone vai ficar onde está. Talvez haja sabedoria nas palavras que ecoam pelas gargantas do Congo.

1

George Hoyningen-Huene

O dia começou com uma mentira. Continuar com a verdade: inviável.
Ônibus, passar o tempo. A volta, sem gaguejar, a voz com traços de indignação. Simulação, dissimulação, insubordinação. O sono era muito, a cama era o fim.

A noite começaria com uma mentira. Qual o mal em fechar as cortinas e encerrar a peça?

Sem mentiras.

Um bar, mais pessoas do que originalmente se esperava. Conheço, conheço, um mar de desconheços. Mais e mais os bares fecham cedo. Gostava da época em que a peregrinação etílica se dava por conta própria, não por razões alheias.
Um grupo, alguns. Uma dupla. Mais de 1000 caracteres antes mesmo de passarem a ser limitados a 140. Garrafas e abomináveis copos plásticos. Risadas e a proteção do álcool contra o vento frio.

O dia vem e todos têm de se esconder nos subterrâneos. Uma despedida desajeitada.
Acaba assim? Há público interessado…

Era só o piloto da série.

Poetaria

Sergey Loie

Minha poesia
Rima com nada
Desmedidamente
Calculada
Num dedo de prosa
Um pouco dessa vida
Desregrada.

Futuro do Pretérito

Peter Maurer

Escreveria sobre pessoas sem nome diante do inominável. Escreveria sobre o que o vento leva e sobre o que ele nem sempre traz. Escreveria sobre a juventude que corrói a pele até não ser mais. Escreveria sobre a alquimia moderna travestindo latão em ouro. Escreveria sobre o encontro dos olhos mirando as bocas para atingir os corpos. Escreveria sobre eu e tu, sem precisar de mais pronomes e casos pessoais retos. Escreveria sobre ser, não ser e talvez parecer. Escreveria sobre apenas estar.

Mas tudo o eu vejo é o beco. Vazio.

Redoma

Ken Wong

Vida em tubo de ensaio, tudo para ser representada. Ajusta-se a química das manhãs, a energia é gasta para girar os pedais que não levam a novo horizonte, moldam-se as noites para serem dormidas. As pílulas lhe trarão a felicidade de não querer mais, a insipidez da água denuncia.

E nada disso jamais aconteceu.

Afasia

Dias brancos,
A voz do silêncio
Ecoa no vácuo.

A linha

Harvey Chan

Sigo a tua linha
No desenho de nossas paisagens
A graficalização das palavras
Trazidas em redes de borboleta
Dançando de suspiro em sussurro

Sigo a tua linha
Círculo traçado aos meus pés
Refém que sou de ti.

Volver

Voluntariada foi a alma para assassinato.
Levado foi o corpo para depósito.

À deriva

O barco.

Vamos voltar pra casa

Nicholas Hughes

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