BecoSangre Rotating Header Image

Blue Oblivion

Corrado Dalco

Como terminara a noite anterior? Restavam-lhe apenas fragmentos com aparência de sonho e mensagens de múltiplos significados. Isso poderia ser evitado, você sabe. Mas a sedução do azul celeste  consegue driblar os mais temerosos pensamentos, mesmo quando na verdade nem seria necessário que ele passasse pela garganta,atravessasse todo o caminho dos outros, ou fosse respirado como o pó que cobre os móveis.
Seria um vício, uma escravidão? Mais um, dentre tantos outros que já fazem parte do regime natural de sobrevida, só que esse talvez puramente fútil, um escape injustificável daquilo que deveria ser vivido a qualquer custo e independentemente de qualquer gosto? Como ter certeza? A probabilidade era grande.
Já sentira aquilo antes com um membro da mesma classe química, mais leve, menos deletério e que ao menos causava uma espécie de ressaca que o tornava de alguma forma repelente ao bom funcionamento diário. Mas este não. Este passava como uma brisa em um dia quente, algo que provoca uma mudança apenas momentânea, para depois cair no esquecimento do clima caudaloso fervente. Os fragmentos de lembrança colam-se uns nos outros formando um todo que, se não fosse sua capacidade de observação, passaria como algo perfeitamente normal.
Mas normal não era, disso tinha certeza. E deveria ser parado. As mínimas coisas estão saindo fora do controle; claro, tudo está fora do controle. Máquina defeituosa cuja única chance de imobilidade parece ser o enferrujamento das ligas das rodas.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Retalhinhos

Pierrot le Fou

E foi num só fôlego que ela disse: eu não te quero mais.

eu não te quero mais.

não.

mais.

Pôs-se em posição fecal para melhor apreciação de toda a sua playlist de músicas melancólicas. Aquelas almas sifilíticas, coxas, fanhas e vítimas de bullying escolar eram tudo o que lhe restara. Não importava a má acústica das caixas de som compradas de segunda mão, já antes de procedência duvidosa.

Você é de um signo de água, eu sou de um signo de ar.

Aqueles remédios amnésicos da caixinha hipocondríaca do João não serviam de nada. Eram como uma bebedeira sem ressaca para moldar a moral; se esquecia apenas de coisas corriqueiras, a memória recente que seria esquecida de um jeito ou de outro. Queria era uma Lacuna Inc. transplantada para o mundo real, objetos para auxiliar no mapeamento do cérebro é que não faltavam.

Aquela vagabunda deixou metade da casa dela aqui.

Vagabundo coração errante que passa pelos caminhos sem se dar conta. Sem senso de direção algum, se perde no meio de vielas que de dia  não chegam a ser nada parecidas, mas à noite são todas parte de um labirinto onírico do gênero pesadelístico.

Entrou numa rua, saiu em outra, esbarrou com uma, caiu nos braços da outra, até chegar o dia em que num só fôlego proferiu as seguintes palavras:

eu não te quero mais.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

24

eu tinha menos que 24 nessa foto, mas agora estou com pijama. e nem passou das 10h10 pra ser meu aniversário mesmo.

Quando estava no primário uma excursão da escola nos levou ao museu da cidade. Não era dos mais artísticos e, entre carros antigos e relíquias coloniais, havia um leão empalhado. No mesmo dia, faltou luz em minha casa. Atrá de cada porta, em cada sombra produzida pela luz amarelada das velas, surgia o leão. E por muitos anos, ele e mais alguns colegas sempre me atormentavam em meus sonhos, tentando invadir a minha casa. Eu, que quase fui leão.

Os anos escolares foram uma ciranda de afetos e desafetos, e a vontade constante de encontrar o meu lugar, que definitivamente não era ali. Vi meu pai sair de casa, mas felizmente não da minha vida. Sobrevivi aos treze anos. Sobrevivi sem osso quebrados à moto que atropelei.

Entrei na primeira faculdade, 17 aninhos, com sonhos e esperanças, e a essa altura já poderia estar formada se não fosse a batalha vencida pelas minhas inaptidões, que me acompanharam na faculdade seguinte. Dentre as amizades alcançadas, pouquíssimas sobreviveram às minhas intempéries e aos meus desajustes sociais. Agradeço a todos os poucos que coneguiram me suportar e que ainda posso acreditar que são meus amigos. Sem querer puxar sardinhas, mas, Di, você é o melhor!

Passei pelos meus meninos, passei pelos meus homens, meninos-homens. Cada qual ocupando uma casa e um reino diferente. Alguns com casas só para si, ainda nas paredes. Agora vivem com estranhos.

Descobri como o pão é amassado pelo diabo em cada dia de trabalho exaustivo. Sobrevivi a colapsos e relapsos. Me submeti a comida mental de astronauta. Me apaixonei pela Argentina. Quero continuar me apaixonando pelo mundo.

Hoje é o dia 24 dos meus 24.

Esse é um post raso. Não comemoro aniversário e tal. Só estou aqui para dizer que sobrevivi.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Sorrateiro

Mark Segall

Aquele que se arrasta pelas brasas arranhando a pele rala invólucro do que pulsa, rumo à explosão do que foi retido sem sentidos. A carne dilacerada de orelha a orelha, brilham os dentes tão polidos. A ausência presente de admirador imaginário, cartão perfumado em celebração ao desaniversário do adversário mais vulgar. O que te veste senão a marca dos dias e as lambidas frias dos que sempre ocuparam o seu lugar?

Da indiferença a catalogar de cor as reminiscências, paisagens borradas do sonho de realidade. Embotando o caminhar pela cidade, passos cinzas certos quanto a inexatidão de ser o que são. Para.

A morte que demora a enlaçar seus mortos.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Apatia

Marcus Ohlsson

Olhos esfumaçados a encarar o copo meio vazio no ambiente enevoado. Lábios de um vermelho vivo que não era seu, posto que não sorria verdadeiramente há tanto tempo que sentia-se morta, um fantasma pagando suas horas extras no limbo — mesmo que desse tipo de crença não compartilhasse, fazem parte do imaginário popular. Um ou outro desvio para observar o ambiente a fim de perceber algum olhar intrometido. Era notada, claro, mas ainda estava segura em sua solidão. Parecia estar claro o suficiente de que lhe era muito bem-vinda e querida.
Mais um gole, a sensação é a mesma. Nem ao menos um inebriante calor era sentido, a bebida não era forte o suficiente. Queria algo como uma amnésia, um esquecimento que fosse capaz de encobrir toda a vida, um retrocesso do estado de lucidez que talvez fizesse com que um recomeço fosse possível. Não parecia adiantar muito. Teria de freqüentar aqueles copos muitas e muitas vezes para tal e dar ao tempo o poder de libertá-la quando já não houvesse nada a fazer.
Girava o copo em suas mãos, com os pensamentos acumulados. As costas doíam de tanto sustentar-lhe a posição. Apenas dor física não vai me levar a lugar algum, pensou consigo mesma. Olhou por vários minutos para suas unhas pintadas de vermelho, quase o mesmo tom do batom. Agarrou o próprio braço, aumentando o aperto das unhas gradualmente, até a mão se cansar. Nada além de uma leve dor e uma marca que em breve desapareceria. Inútil, de fato.
Com a guarda baixa, finalmente foi abordada por um desconhecido de intenções dúbias. Olhou-o com desconfiança e até com um pouco de raiva por invadir-lhe a bolha, mas até que sua fisionomia não era de todo repugnante. Trocaram algumas palavras, ela soltou alguns sorrisos falsos e algumas mentiras, como manda o protocolo. Olhou para o copo vazio, sentiu o formigar da unhada no próprio braço, deu uma longa olhada em seu interlocutor. Talvez. Talvez conseguisse uma forma mais eficaz de se ferir.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Vento

Helko Waechter

Canta a chuva lá fora e não é preciso estar sob o céu aberto para sentir-se encharcado. Os pingos caindo como pequenas lanças a ferir a carne-viva deste corpo que dói só porque assim fora acostumado.
Passa a chuva, mas ainda os passos deixam marcas d’água por ondem resolvem errar, caminhante da pequena cela destinada a ser lar, mas que de aconchego oferece apenas um cobertor para se proteger do frio. A casa vazia, a respiração única que ecoa por todas as paredes, deixando a falsa ilusão de que há uma presença. Os livros esparramados pelo chão, pelo lado vazio da cama, por todos os cantos, contém mais vida do que o corpo que os faz companhia.
A chuva. Queria ser como a chuva, da qual ninguém se mantém indiferente, a qual é notada assim que anuncia sua chegada. Mas não, era apenas mais um fantasma entre tantos outros, caminhando em filas rumo a lugar nenhum, destinado ao mesmo fim. Quisera ser a chuva, que mesmo depois de cessar, ainda deixa suas marcas pelo asfalto, pelas telhas, pelo casaco da mocinha que correu para se abrigar debaixo do toldo.
Ah, as mocinhas. Todas contentes, ou simplesmente indiferentes. Para elas ele sempre fora vento, que passa a lhes bagunçar os cabelos e fazer cerrar zíperes de casacos. Apenas uma rajada de vento, ou simplesmente uma brisa, que não deixa lembranças, que não deixa marcas. Nenhuma a lhe querer a companhia, nenhuma a lhe estender a mão logo após a queda. As mocinhas são fugidias, cada uma arranja logo depois um herói, um corta-vento que lhes aqueça, que lhes faça esquecer dos rodamoinhos que ele tem a oferecer.
Sempre fora assim com o menino-vento, que mesmo após tornar-se homem-vento ainda era apenas um menino. Elas sempre se cansavam de seus truques, de seus levantar de saias, de seus beijos suaves na face. Elas sempre se esqueciam, elas sempre iam, ele nunca conseguia fazer-lhes parar sob toldos, sob seus braços, sob suas súplicas e sussurros. Por quê?
Ele olhava a chuva e as mocinhas na calçada. O vento apenas passa. Ele queria ser a chuva, mesmo que fosse para lentamente evaporar.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

José

Clayton Cotterell

Olhou para as bagas de cigarro no chão e sentiu a reminiscência do odor entre os dedos da mão direita. Apalpou o bolso e encontrou nada além de um maço vazio; desejou voltar ao tempo em que não sabia o que era a vontade de fumar. Soltou um suspiro de insatisfação e resolveu deixar de esperar o ônibus e seguir o caminho a pé. Eram apenas alguns metros, só a preguiça para justificar mais de 15 minutos gastos num ponto de ônibus vazio. E nem chovia.

Resiliência. Essa palavra tinha bastante ocorrência em uma revista de psicologia que lera em um consultório um dia desses. Ficou na cabeça, mas nem se deu ao trabalho de ir até um dicionário para averigüar qual seria o seu significado. Deduziu que era agüentar o tranco, assim, bem traduzido para o português. Agüentar o tranco sem chamar a mãe. Ele se considerava resiliente. Não tinha mais mãe em cujas saias se esconder há algum tempo e, fora uma ou duas corridas para bebidas ou outros quetais, se resolvia bem diante dos desafios que lhe atrapalhavam o bem caminhar. Não passava manco por muito tempo.
Mas ao mesmo tempo se perguntava se o que tinha era resiliência ou acomodação ao passo dos acontecimentos. Será que não seria o caso de dar menos de ombros? Colocar a boca no trombone, chorar para mamar a mais, essas coisas que ele associava a pessoas mais espertas? Não sabia. Há coisas que também não valem a pena se inconformar demais, porque daí não tem jeito. Como a morte, por exemplo. Fazer greve de fome e protestos fechando grandes avenidas não traria ninguém de volta do mundo dos mortos. Mas também, agüentar certas coisas calado… Não, resiliência não era engolir sapo: era aprender que certas coisas são como são e devemos lidar com elas da forma correta, sem que atrapalhem nossos pormenores.

Chegou ao seu destino satisfeito consigo mesmo, se achando um filósofo do cotidiano. Em debate mental, não importa qual das vozes vença, ela sempre será a sua.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Doc Henry

Heid Slimane

Olho pra ele, do outro lado da mesa e com o netbook pronto para anotações, e fico me perguntando quantos ele já perdeu. Daqueles pacientes que não aparecem mais e depois de um tempo descobre-se que completaram o caminho à condição de cadáver. Dos que não respiram e entram em decomposição acelerada mesmo, não os que se esgueiram pelos cantos ou se afundam em camas, feito eu. O humor negro sempre deu o tom entre uma observação ou outra, e esse foi o principal fator da minha fidelidade. Talvez eu seja narcisista o bastante para me conectar só a pessoas que se parecem comigo, compartilhem o mesmo humor doentio e filmes do Woody Allen. Talvez.

Mas as coisas andam mal,  o humor tem ficado menos evidente e às vezes me sinto apenas na frente de um doutor. Oras, não era pra ser isso? Essa minha vocação zombeteira, famoso kevlar social, insiste que a realidade seja assim:  uma grande brincadera de gosto duvidoso. Mesmo com quase um ano de experiências farmacológicas que me jogam de um ponto ao outro, talvez o principal fator que leve a cada mês uma nova expressão de preocupação sutil permeando nossos encontros.

Mostrei-lhe meu braço-cinzeiro. Ganhei parabéns (that’s my doc!) pelas cicatrizes que ficariam ali para sempre. Isso porque nem mostrei o ombro filetado. Ele me contou a história do paciente psicótico que marcava o peito com ferro em brasa. É, eu tenho colegas muito mais dramáticos. O que não impediu que houvesse uma ligeira alteração no tom de voz e um nervosismo reprovador. Provavelmente uma resposta contra a minha própria alteração, ali, com o humor doentio ainda intacto, talvez tomado como provocação. Não me compreenda mal, doutor, eu só quero que as coisas parem, que eu consiga o que todos parecem conseguir. Ele diz que isso toma tempo, e eu tenho que seguir firme no caminho rumo ao nirvana psicotrópico e psicológico, ser o ratinho de laboratório em forma humana.

But, you know, I’m not getting any younger. And, even less, any healthier.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Automatosis

Hans Bellmer

Olhos abertos. A visão embaçada confere as horas determinadas para o despertar. A mão pesada leva o dedo a apertar o botão.

Inicializando o sistema…

1

2

3

Falha na conexão.

Olhos abertos. A visão embaçada confere as horas determinadas para o despertar. A mão pesada rasteja até o aparelho ressonante, o dedo aperta o botão.

Inicializando o sistema…

1

2

Falha na conexão.

Os olhos se abrem sem que os ouvidos mandem. Checa as horas. Preparar inicialização.

1

Falha na conexão.

Chamados. Os olhos semicerrados e a boca murmurando respostas às questões. Os técnicos vieram checar o autômato. O sistema responde, mas a inicialização falha novamente. Modo de segurança. A varredura toma longos minutos até a seguinte tentativa de inicialização.

1

2

3

4

5

6

Autômato inicializado. Sistema:lento.

Funcionar.

Engolir. Operação: sucedida.

Olhar assustado e voz trêmula: foi a surpresa ou o olhar fulminanteem tom de educação  mal disfarçada? Este autômato veio com defeito.

Funcionar.

Engolir.

Executar.

Sistema: lento e instável.

Algum problema nas ligações? Defeitos de série? Lote danificado? Este autômato não exerce bem as faculdades de autômato. Diagnóstico do sistema: falta crônica nos compartimentos de paixão. Outro compartimento? Uma peça conjugada só tornaria o sistema mais lento. Necessidade de formatação.

Melhor seria o descarte. Problema: o lixo eletrônico se transformaria em carga de culpa à matriz. Deixe como está.

Um vírus, um curto-circuito, algum dano saído do acaso? Este autômato veio com defeito. Auto destruição: operação ilegal.

Funcionar.

Engolir.

Sistema: adormecido.

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post

Erostânatos

Chadwick Tyler

Quando alguém me dá uma arma e diz aponta para o meu coração! me deleito mesmo sem gozar. Criatura vampírica amante fiel da destruição, torturo com o gatilho os nervos da vítima dos meus sortilégios até que não sobre frio para correr a espinha. Mantenho reféns, proclamo matança. Mantenha a maçã em sua cabeça, venda-te os olhos e confia no meu masoquismo, pobre criatura, tão despida de si.

Mas assim, quando vejo algumas criaturas nuinhas, me corróem as entranhas e me enterneço pela cabeça que suporta a maçã, quero guardar como balinhas carameladas em papel celofane o coração. Ali, dentro de uma gavetinha, pra só olhar. Pegar no colo o porquinho-da-índia e fazer cafuné até a lua passar, de leve, de mansinho, com a arma ao lado, ainda pensando em matar. Ai, mas como é terna essa criaturinha! Ai, mas como cheira a bebê limpinho, que tenra a carne que saboreio lentamente com todas as papilas dessa minha língua extrañera.

Dou por mim e já estou com a arma voltada à própria boca. Bum!

Share and Enjoy:
  • Google
  • TwitThis
  • Facebook
  • Live
  • Tumblr
  • del.icio.us
Tuitar este post