Dicionário de nomes para bebês. Capa rosinha, do jeito que futuras mamães, com seu cheiro característico (porque todas as grávidas têm o mesmo cheiro, não sei se é de algum produto ou se é o meu faro animalesco indicando a presença fetal) gostam. Está lá; Camila: origem latim; Jovem criada, atendente de cerimonial. Jovem. Tudo bem. Criada. Ahn? Atendente. Ahn? Cerimonial. Do quê? Empregadinha ou daminha, o que é melhor? Não estou desdenhando nenhuma das posições, mas creio que há algo mais digno de se carregar pro resto da vida. Meu fardo é obedecer e servir?
Fechemos este livro fedendo a talco. Mitologia romana. Aqui há uma Camila: a favorita de Diana, era caçadora, guerreira e Rainha dos Volscianos. Essa moça não conhecia os afazeres domésticos (rá!), aprendera a suportar os trabalhos da guerra, em velocidade podia bater o vento e andar sobre as águas sem afundar (fucking powerful!).
Seu pai, Métabo, foi expulso de sua cidade por discórdia civil e levou com ele sua filha. Fugindo de seus inimigos em meio à floresta, chegou às margens do rio Amazeno, que estava cheio por causa das águas das chuvas: ele então parou por um momento e amarrou a criança em sua lança, envolveu-a em cascas de árvore, levantou a garota e disse a Diana: “Deusa das matas! Consagro-vos esta donzela!” e então arremessou sua arma à margem oposta do rio. A lança atravessou as águas furiosas, ele pulou no rio e nadou em direção a ela encontrando a filha salva. Daí por diante, passou a viver entre os pastores, ensinou Camilla a utilizar arco e flecha, podendo assim abater patos e cisnes selvagens. Muitas mães a queriam como nora, mas ela permanecia fiel à Diana rejeitando a idéia de casamento. Ela aparece na Eneida, veja só, luta bravamente, mas acaba morta. Diana fica emputecida e mata em seguida quem tirou a vida da pobrezinha.
Ok, obedecer e servir a uma deusa pode ser até legal e pode ser até daí que tiraram esse significado, apesar da parte de virgin forever e o lesbianismo sutil não serem lá tão agradáveis (mais uma vez, sem querer ofender a ninguém) de se carregar nos ombros para o resto da vida.
Deixando esses latinos ocidentais melodramáticos gregos-wannabe de lado e indo pros orientais, mais precisamente, os do meio, encontramos uma raiz assaz lisonjeira como fardo nominal: Camila também pode vir de Kamilah que em árabe significa perfeito. Alguns teimam em esconder suas mulheres por detrás de uma infinidade de panos, mas temos de concordar que estes senhores sabem como agradar às suas damas, não? Se bem que para tudo há um porém, e nem a perfeição escapa: talvez seja o pior dos fardos a serem carregados. Como ser perfeito o tempo inteiro? Como ser perfeição? Como carregar isso no nome sem desonrar a palavra, o sentido, o que de fato é perfeição? Não, árabes, estou bem longe de vocês, e já tenho neuroses suficientes para carregar nesses pequenos ombros, meus tornozelos são demasiado frágeis para suportar tão rudes e pesados grilhões, ainda mais vindo de vocês, que criam coisas tão belas como as que foram por vocês legadas à humanidade, datadas de seus tempos áureos. Desculpe, me acomodo com a simples função do servir, que de simples só tem-se a teoria.
Saindo do campo das significações, e indo pro das identificações, 107 Camila também é um cinturão de asteróides imenso, em homenagem à já citada rainha amazona; um furacão que devastou os Estados Unidos e um gênero de mosquinhas. Atmosférico, eu diria. Aliás, ultrapassa isso. Nada mal para uma virgem. Isso é que é a vantagem de se filiar a boas companhias divinas.
E saindo das identificações impessoais, vamos para as outras mulheres notáveis que compartilhavam e compartilham o primeiro nome que alguns dizem nos definir. Entre as Camilas, com um ou dois Ls, terminadas em um a de toque latino, encontramos várias artistas, atrizes, compositoras, cantoras… é, nenhuma muito famosa. Mas estamos num bom caminho, amigas das artes. Nossa “cerimônia” parece bem… estética.
Agora, vamos à minha variação preferida, obsessão do momento: a afrancesada. Aquele e no final que dá todo um toque de sutileza à impetuosidade latina do a aberto e pulsante, quase um grito. O e, mesmo conferindo a Camille um tom unissex (sim, Camille também pode ser um cara, cuidado, rapazes afoitos) transmite uma certa leveza, o que não apazigua nenhuma paixão, muito pelo contrário. O e, contido, de lábios semicerrados é um véu de fumaça, é o ar blasé que esconde o vermelho sangue das revoluções e dos bordéis, o verde esmeralda do absinto que inebria e ebule as mentes dos poetas.
Ok, primeiro façamos uma observação óbvia, mas que deve ser anotada: Camille é a versão mais empregada do nome lá daqueles cantos que governaram e governam o mundo, portanto, se fazem mais conhecidas as Camilles do que nós, Camilas. Mas sem luta de classes, sabemos que todas carregamos em nossas identidades a mesma marca, deixe de lado a entonação.
Camille Claudel. Sempre quis te mencionar num texto. Aliás, acho que fiz esse monólogo pseudo-narcisista só pra falar de ti. Se tornou minha obsessão há pouco tempo atrás, fui atrás de obras, biografias, relembrei o filme visto há algum tempo, em que Isabelle Adjani tinha a honra de te interpretar. Camille era um gênio selvagem, uma paixão descontrolada, que transformava matéria sólida em vida estática. Daí vem sempre alguém falar do Rodin. Sim, Camille só apareceu na rodinha (rá) porcausa dele, mas ele também foi sua ruína. Não há como negar que ela, sim, ela teve influência no trabalho dele, e até mesmo pode-se levantar a dúvida de que algumas obras a ele atribuídas sejam de fato dela. A intensidade incontrolável de Camille a levou à loucura e à marginalização: morou com ele em concubinato, o que a tornou malvista pela sociedade (tsc tsc, esse mundo dos homens fracos), e por ele foi abandonada quando o bonitinho resolveu se casar de verdade com sua amante mais antiga. Sozinha, pobre, marginalizada, Camille morreu num hospício e foi enterrada numa vala comum.
Subo numa escadinha de mármore e me dispo de qualquer dissimulação de humildade pra dizer que minha obsessão se dá por às vezes me encontrar na figura de Camille, a terrible Claudel, minha companheira de origem nominal. Tenho descoberto em mim intensidades que talvez sempre estivessem lá, latentes, esperando pelo momento de ir contra as barragens que se aprende a construir conforme se convive em sociedade. E, como todo preparo não se equivale ao embate real, elas às vezes não parecem ser fortes o suficiente para conter tudo o que quer fluir desse ser aparentemente diminuto e frágil que sou. A loucura bate à porta, a loucura construiu esse blog, a loucura me põe insone, irrequieta, inconstante, atrás de mecanismos de autocontrole e autodefesa, atrás de químicas e palavras mágicas. À beira da explosão, mais ainda do que quando os hormônios da adolescência somados ao meu cenário familiar mexiam comigo. Aquilo foi uma suave brisa perto desse furacão. E não fica só aí a identificação: às vezes me vejo às voltas com Rodinzinhos para os quais me entrego inconseqüentemente e, por mais que tente me conter, desmedidamente, pra depois ser abandonada junto a fantasmas a serem destruídos… Quanta tragédia pra carregar num nome, Camila, quanta tragédia.
Camille também me leva à personagem de Brigitte Bardot em O Desprezo, de Godard. Inspirado no romance homônimo de Alberto Moravia, que logo após assistir ao filme fui correndo comprar. Uma pequena decepção: a personagem em questão, no original não é Camille, tampouco Camila, e sim Emília. Mas não faz mal. Ainda fico com a Camille de B.B. na cabeça, que tanto me tocou. E lá estava eu novamente, diante de meu homônimo afrancesado, revivendo o meu desprezo, o desamor, a decepção. Sinto estragar o final para quem não viu o filme (que inclusive vale a pena ser visto, é uma das obras-primas do diretor), mas esta Camille também encontra final trágico.
Será este o fardo do nome? Camila é arte, intensidade… e morte dramática? Em guerra, em hospícios, em acidentes? Fictícias, reais? Mas são tantas as Camilas… Mas são tantos os compartilhamentos… Se for pra ser arte, que seja arte! Se for pra continuar a intensidade, que continue! Se for pra ter tragédia… que ao menos haja uma deusa protetora para me vingar!

L'abadon, Camille Claudel