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Faxina

Milou Neleen

Milou Neleen

Desde o ano passado, a mesma roupa de cama, a mesma capa sobre o sofá, os mesmos papéis no lixo, o mesmo pó sobre o chão. O caos reina.

Mas ainda de fevereiro não chegamos nem à metade.

Todo cambia, todo cambiado. O perfume de roupas limpas por toda a cama e pelo sofá que já não estava atolado de coisas que já eram dadas como perdidas em meio à bagunça, o chão que já brilhava de novo e não imprimia marcas nos pés de quem se atrevia a caminhar sobre ele descalço. A lixeira do quarto, que nem de saco era guarnecida por ser usada apenas de vez em quando (o que conferia ao fato de estar acumulada o caráter de um desleixo de milênios) finalmente vazia…

… não fosse por um pequeno detalhe.

Pode ter sido o vento, um esbarrão, o fio do aspirador, um espectro, uma chacoalhada no véu de Maia; ao fundo da lixeira, perfeitamente alojada de maneira a passar a impressão de que me mirava, estava minha figura impressa em cores vívidas e papel fosco com borda branca de 1mm, sorrindo maliciosamente com uma sobrancelha levantada. Não muito distante estava a data em que a foto havia sido tirada, ao contrário das pessoas ao redor e do espírito da retratada naquela ocasião - assim como em muitas das outras fotos espalhadas pelo pequeno apartamento.

Parou por um minuto diante daquele momento. A retratada devolveu ao retrato a mesma expressão que ele lhe havia roubado e voltou sua mente ao que ainda havia por fazer.

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Emaranhado

Sergey Loie

Sergey Loie

Cabelos cabelos pêlos por todos os lados. Negros cabelos avermelhados tufos embolados nos cantos nos meios nos ralos nos pés debaixo da cama das cadeiras do sofá. Cabelos não faltam na cabeça, mas também não faltam aos pés. Cada passo descobre um novo tufo, caminho de cabelos novelos, que levam ao fim de um labirinto imaginário. Juntando fio por fio, será que surge o fim da noite, a resposta do enigma? Será possível tecer uma teia que forneça um mapa de tesouro? Uma capa de invisibilidade? Um cobertor para proteger do frio d’alma? Um vestido de noiva enlutada?

Penteio os cabelos com os dedos e surgem mais e mais pelo chão e se amontoam os cabelos em cabelos e cabelos e se juntam todos os cabelos que são pele morta apesar das propagandas e dos shampoos de fato os fazerem brilhantes e sedosos e vai subindo e subindo uma torre de cabelos e cabelos que vão se transformando aos poucos se dividindo tomando uma forma e ao me virar dou um grito ao me ver tal como sou.

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Revoluções 141

Daikichi Amano

Daikichi Amano

Primeiro Império

Ovos, pulpas, larvas e moscas, o ciclo completo da vida derivada do podre dividia o espaço com os fungos cujas cores descolorem a paleta das frutas e legumes. O cheiro da colônia de férias impregnava os tecidos curtidos pelo vento que apenas secaria se as roupas fossem substituídas, mas há tempos eram as mesmas.

Era de se estranhar que a pequena porção de terra envasada no parapeito da janela não houvesse ainda se tornado propriedade de ervas daninhas, mas a observação atenta dos arredores já anunciava que, em meio ao concreto, não sobrava espaço para a vida, já totalmente drenada pela planta seca que em vão tentara sobreviver; além do que, àquela altura, as sementes paraquedistas precisariam renunciar à gravidade para germinar.

O território era apenas das formas de vida marginalizadas e repelidas, império que em pouco tempo cumpriria o seu destino decadente rumo ao desmoronamento por falta de recursos. Canibalismo e morte lenta ou o fim rápido: eram essas as opções dos seres abandonados por seu deus, que nas horas finais não ofereceria a si mesmo como oferenda misericordiosa, pois dali estava longe, para nunca mais voltar.

Sergey Loie

Sergey Loie

Segundo Império

O cheiro de putrefação atiçou a ira dos deuses. Sim, eles retornaram, até a vida divina é injusta. Um erro tal descontrole. Violentamente, cada casa, cada casta foi removida e jogada às bocas destruidoras. Os bravos resistentes que se apegavam à superfície lisa e branca daquele pequeno cosmos foram sumariamente mortos por rajadas desinfetantes, esfregados, expatriados, reduzidos a nada. Higienização orgânica. Daquele império só sobrou a inócua terra envasada com a planta morta, de marco às gerações seguintes.

Mas a reforma se limitou a isso. O deus designado aos cuidados do império pouco se importava com aquele lugar e suas obrigações, estando sua cabeça, e até mesmo a sua essência bailando em outras coordenadas. Fez-se a limpeza primordial, mas onde que não se havia feito revoluções não fora incomodado. Só se acumulavam coisas, trazidas de fora. O império do caos. Parecia até não haver deus, ou deuses. Sua presença se denunciava por mudanças discretas de tempos em tempos, acúmulos, adições, subtrações.

O deus estava mais preocupado consigo mesmo para se ligar ao cosmos. Deixava que tudo acontecesse ao modo que o vento desejasse. Era um aquário de formigas. Mas não havia formigas, a princípio. Apenas as moscas, algumas sobreviventes ou que renasciam das cinzas do lixo mal recolhido, a primeira barata que foi devidamente exterminada, os pernilongos que finalmente surgiam com o calor do prelúdio do fim. Pó e cinzas por toda parte, pele morta em fios que se acumulavam em torno do ralo, quase formando uma nova cabeça, um novo deus, que quem sabe seria talvez um pouco menos egoísta, já que seria desprovido de eu.

E nesse ambiente calmo, novas formas de vida organizavam uma revolução mais inteligente que a do primeiro império. Era silenciosa, às escondidas, passando-se desapercebida. Aproveitava-se das frestas escondidas pela necessidade de preservação diante do mau tempo. Como surgiam não se sabe, já que considerava-se os arredores estéreis, mas estavam lá. Não só no mofo das paredes do banheiro, que já era justificável e previsível, sobrevivia por pura falta de vontade de ser eliminada. Aquela era uma forma de vida estúpida, facilmente removível, com uma só esfregada e já não estaria mais lá, portanto, não lhe dava muita importância, o deus ególatra. Mas lá, longe de seus olhos temerosos pela água que não cessava, crescia a nova revolução. Seus pilares eram uma pequena e inexpressiva planta, quebrada pelo movimento da porta ao primeiro raio de sol; e um ser, que poderia ao mesmo tempo ser um ou dois, ou quiçá vários, mas que com certeza era da mesma espécie: alaranjado, cor de manga, tinha até uns fiapos.

O deus ficou um tanto quanto preocupado, mas nada fez. Deixou a varanda aberta para que o sol cuidasse daquilo que talvez só tivesse surgido por conta da umidade. Mal sabia que estava diante da possibilidade do surgimento de um terceiro império… Ou não?

Sergey Loie

Sergey Loie

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Nós que aqui estamos, por vós esperamos

Jim Morrisson & Pamela Courson

Jim Morrisson & Pamela Courson

Qual o sentido do medo de fantasmas
num mundo de memórias?
Num mundo de fotografias?
Num mundo de gravações de filmes?

Só porque estão bonitos?
Sorrindo, de mãos dadas,
brilhando ao sol?

Esconde-se a mágoa.
Só brincadeiras
Um olhar triste
torna-se um olhar pensativo.

Aquelas palavras
que ele sempre esquecia
quando bem lhe convia,
para sempre gravadas,
passadas em câmera lenta.

A bela de cabelos de fogo
que em bruxa também se convertia.
A culpa não é única do homem
É filha de guarda compartilhada.

Essa canção é pra você
Lirismo surrealista de amor
É uma linda canção
Que fica tão triste
Assim, silenciando-se
As imagens apagando-se

Estão todos mortos
Estão todos mortos
Estão todos mortos

Os mortos são eternos.

(inspiração veio ao assistir a esse vídeo over and over http://bit.ly/9UIWVW. não sei se era a intenção de quem montou, mas ficou algo tão triste…)

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C a m i l a

Dicionário de nomes para bebês. Capa rosinha, do jeito que futuras mamães, com seu cheiro característico (porque todas as grávidas têm o mesmo cheiro, não sei se é de algum produto ou se é o meu faro animalesco indicando a presença fetal) gostam. Está lá; Camila: origem latim; Jovem criada, atendente de cerimonial. Jovem. Tudo bem. Criada. Ahn? Atendente. Ahn? Cerimonial. Do quê? Empregadinha ou daminha, o que é melhor? Não estou desdenhando nenhuma das posições, mas creio que há algo mais digno de se carregar pro resto da vida. Meu fardo é obedecer e servir?

Fechemos este livro fedendo a talco. Mitologia romana. Aqui há uma Camila: a favorita de Diana, era caçadora, guerreira e Rainha dos Volscianos. Essa moça não conhecia os afazeres domésticos (rá!), aprendera a suportar os trabalhos da guerra, em velocidade podia bater o vento e andar sobre as águas sem afundar (fucking powerful!).

Seu pai, Métabo, foi expulso de sua cidade por discórdia civil e levou com ele sua filha. Fugindo de seus inimigos em meio à floresta, chegou às margens do rio Amazeno, que estava cheio por causa das águas das chuvas: ele então parou por um momento e amarrou a criança em sua lança, envolveu-a em cascas de árvore, levantou a garota e disse a Diana: “Deusa das matas! Consagro-vos esta donzela!” e então arremessou sua arma à margem oposta do rio. A lança atravessou as águas furiosas, ele pulou no rio e nadou em direção a ela encontrando a filha salva. Daí por diante, passou a viver entre os pastores, ensinou Camilla a utilizar arco e flecha, podendo assim abater patos e cisnes selvagens. Muitas mães a queriam como nora, mas ela permanecia fiel à Diana rejeitando a idéia de casamento. Ela aparece na Eneida, veja só, luta bravamente, mas acaba morta. Diana fica emputecida e mata em seguida quem tirou a vida da pobrezinha.

Ok, obedecer e servir a uma deusa pode ser até legal e pode ser até daí que tiraram esse significado, apesar da parte de virgin forever e o lesbianismo sutil não serem lá tão agradáveis (mais uma vez, sem querer ofender a ninguém) de se carregar nos ombros para o resto da vida.

Deixando esses latinos ocidentais melodramáticos gregos-wannabe de lado e indo pros orientais, mais precisamente, os do meio, encontramos uma raiz assaz lisonjeira como fardo nominal: Camila também pode vir de Kamilah que em árabe significa perfeito. Alguns teimam em esconder suas mulheres por detrás de uma infinidade de panos, mas temos de concordar que estes senhores sabem como agradar às suas damas, não? Se bem que para tudo há um porém, e nem a perfeição escapa: talvez seja o pior dos fardos a serem carregados. Como ser perfeito o tempo inteiro? Como ser perfeição? Como carregar isso no nome sem desonrar a palavra, o sentido, o que de fato é perfeição? Não, árabes, estou bem longe de vocês, e já tenho neuroses suficientes para carregar nesses pequenos ombros, meus tornozelos são demasiado frágeis para suportar tão rudes e pesados grilhões, ainda mais vindo de vocês, que criam coisas tão belas como as que foram por vocês legadas à humanidade, datadas de seus tempos áureos. Desculpe, me acomodo com a simples função do servir, que de simples só tem-se a teoria.

Saindo do campo das significações, e indo pro das identificações, 107 Camila também é um cinturão de asteróides imenso, em homenagem à já citada rainha amazona; um furacão que devastou os Estados Unidos e um gênero de mosquinhas. Atmosférico, eu diria. Aliás, ultrapassa isso. Nada mal para uma virgem. Isso é que é a vantagem de se filiar a boas companhias divinas.

E saindo das identificações impessoais, vamos para as outras mulheres notáveis que compartilhavam e compartilham o primeiro nome que alguns dizem nos definir. Entre as Camilas, com um ou dois Ls, terminadas em um a de toque latino, encontramos várias artistas, atrizes, compositoras, cantoras… é, nenhuma muito famosa. Mas estamos num bom caminho, amigas das artes. Nossa “cerimônia” parece bem… estética.

Agora, vamos à minha variação preferida, obsessão do momento: a afrancesada. Aquele e no final que dá todo um toque de sutileza à impetuosidade latina do a aberto e pulsante, quase um grito. O e, mesmo conferindo a Camille um tom unissex (sim, Camille também pode ser um cara, cuidado, rapazes afoitos) transmite uma certa leveza, o que não apazigua nenhuma paixão, muito pelo contrário. O e, contido, de lábios semicerrados é um véu de fumaça, é o ar blasé que esconde o vermelho sangue das revoluções e dos bordéis, o verde esmeralda do absinto que inebria e ebule as mentes dos poetas.

Ok, primeiro façamos uma observação óbvia, mas que deve ser anotada: Camille é a versão mais empregada do nome lá daqueles cantos que governaram e governam o mundo, portanto, se fazem mais conhecidas as Camilles do que nós, Camilas. Mas sem luta de classes, sabemos que todas carregamos em nossas identidades a mesma marca, deixe de lado a entonação.

Camille Claudel. Sempre quis te mencionar num texto. Aliás, acho que fiz esse monólogo pseudo-narcisista só pra falar de ti. Se tornou minha obsessão há pouco tempo atrás, fui atrás de obras, biografias, relembrei o filme visto há algum tempo, em que Isabelle Adjani tinha a honra de te interpretar. Camille era um gênio selvagem, uma paixão descontrolada, que transformava matéria sólida em vida estática. Daí vem sempre alguém falar do Rodin. Sim, Camille só apareceu na rodinha (rá) porcausa dele, mas ele também foi sua ruína. Não há como negar que ela, sim, ela teve influência no trabalho dele, e até mesmo pode-se levantar a dúvida de que algumas obras a ele atribuídas sejam de fato dela. A intensidade incontrolável de Camille a levou à loucura e à marginalização: morou com ele em concubinato, o que a tornou malvista pela sociedade (tsc tsc, esse mundo dos homens fracos), e por ele foi abandonada quando o bonitinho resolveu se casar de verdade com sua amante mais antiga. Sozinha, pobre, marginalizada, Camille morreu num hospício e foi enterrada numa vala comum.

Subo numa escadinha de mármore e me dispo de qualquer dissimulação de humildade pra dizer que minha obsessão se dá por às vezes me encontrar na figura de Camille, a terrible Claudel, minha companheira de origem nominal. Tenho descoberto em mim intensidades que talvez sempre estivessem lá, latentes, esperando pelo momento de ir contra as barragens que se aprende a construir conforme se convive em sociedade. E, como todo preparo não se equivale ao embate real, elas às vezes não parecem ser fortes o suficiente para conter tudo o que quer fluir desse ser aparentemente diminuto e frágil que sou. A loucura bate à porta, a loucura construiu esse blog, a loucura me põe insone, irrequieta, inconstante, atrás de mecanismos de autocontrole e autodefesa, atrás de químicas e palavras mágicas.  À beira da explosão, mais ainda do que quando os hormônios da adolescência somados ao meu cenário familiar mexiam comigo. Aquilo foi uma suave brisa perto desse furacão. E não fica só aí a identificação: às vezes me vejo às voltas com Rodinzinhos para os quais me entrego inconseqüentemente e, por mais que tente me conter, desmedidamente, pra depois ser abandonada junto a fantasmas a serem destruídos… Quanta tragédia pra carregar num nome, Camila, quanta tragédia.

Camille também me leva à personagem de Brigitte Bardot em O Desprezo, de Godard. Inspirado no romance homônimo de Alberto Moravia, que logo após assistir ao filme fui correndo comprar. Uma pequena decepção: a personagem em questão, no original não é Camille, tampouco Camila, e sim Emília. Mas não faz mal. Ainda fico com a Camille de B.B. na cabeça, que tanto me tocou. E lá estava eu novamente, diante de meu homônimo afrancesado, revivendo o meu desprezo, o desamor, a decepção. Sinto estragar o final para quem não viu o filme (que inclusive vale a pena ser visto, é uma das obras-primas do diretor), mas esta Camille também encontra final trágico.

Será este o fardo do nome? Camila é arte, intensidade… e morte dramática? Em guerra, em hospícios, em acidentes? Fictícias, reais? Mas são tantas as Camilas… Mas são tantos os compartilhamentos… Se for pra ser arte, que seja arte! Se for pra continuar a intensidade, que continue! Se for pra ter tragédia… que ao menos haja uma deusa protetora para me vingar!

L'Abandon, Camille Claudel

L'abadon, Camille Claudel

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A Orientação dos Gatos

foto tirada de tumblr, logo, não quem é o autor

foto tirada de tumblr, logo, não sei quem é o autor

O Gato de Boinas estava atrás do Tratado da Natureza Humana, de Hume. Foi ao senhor livreiro, mas não encontrou. A Gata de Negro chegou. Perguntou se havia o original em inglês de uma obra banal. Pois há, disse o livreiro, e entregou-lhe em mãos.  A Gata de Negro foi se dirigindo às outras prateleiras, seguida de leve pelo olhar do Gato de Boinas que insistia em seu Hume. Simone de Beauvoir?, a Gata de Negro perguntou. Somente estes, apontou o livreiro. O Segundo Sexo, não? Não, esse levam embora rápido, respondeu o livreiro prestativo, trazendo-lhe o cartão com o endereço virtual do Sebo. Ele sempre aparece, mas assim que chega, vai embora, disse ele. No segundo andar há mais literatura. Cortázar, Éluard? Só esses, aquele não.

E continua o Gato de Boinas, deixando a falta do Hume para lá, a prosear com o livreiro. A Gata dança, se espreguiça, se alonga. O Gato permanece ao alcance do olhar, a falar e a falar, a olhar e a olhar. A Gata vem, o Gato vai. A Gata sobe, o Gato olha. A Gata desce, o Gato permanece. A Gata avança, o Gato a acompanha em reverso, olhos ao chão. O livreiro embala na prosa uma piada. A Gata ri. O Gato resolve que é hora de ir. Ah, mas que belo novelinho de lã acaba de sair pela porta… Camus? Não, também vai embora rápido. Então, vou-me.

Na saída, a Gata de Negro se vira. Lá está o Gato de Boinas, e assim que ela vira a cabeça em sua direção, ele também a observa, levantando os olhos do livro que lia. Gato de Boinas, estou mais Nietszche ou Schopenhauer? não disse a Gata de Negro. Ela finge que olha se as outras lojas estão abertas, e ele não tira os olhos dela. ¿Le gusta Hume? ¿La naturaleza de las zonas húmedas, qué tal? diria a Gata de Negro Borracha por El Fuego. Mas à alguns gatos a exitação sobrepõe a curiosidade, e a Gata de Negro dá um demi-grand rond de jambe e entra na loja de sapatos. Ah, que pena, não há sapatilhas. Tampouco um gato a brincar com um solitário coração.

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A Noite do Cão

Chih Han Hsu

Chih Han Hsu

Era só uma irritação, nada mais. Minha liberdade diminuiria, mas o lado ruim dela poderia ser suprimido. Só o lado bom que eu teria de tratar com um pouco mais de cautela. Estava tudo bem. Até que um raio me atingiu.

Um grito mudo veio com toda a velocidade pela minha garganta, arrombando meus lábios. Veias saltadas, a cabeça virou puro vácuo. Meu peito, pobre peito, por ser o detentor da caixa torácica que envolve meu selvagem coração, queria explodir. E explodiu. Lágrimas vieram, muitas, muitas, um exército delas, tudo negro, tudo branco, as cores da morte. Não conseguia parar de chorar. Não sabia pra onde correr, a quem recorrer. Todos com suas vidas em curso, e eu com minha enchente para atrapalhar-lhes.

Recorri ao amante extirpado, com medo de dar-lhe um gosto de vingança. Ele passava por essas coisas comigo antes. Tinha alguém pra ao menos me consolar, talvez me tirar daquilo. Teve de ser ele. Me deu os mesmo conselhos de sempre, que surtiram o mesmo efeito de sempre. Mas ao menos me deu mais tempo pra pensar.

Rivotril. O calmante mais vendido no mercado. Meu médico me dá receitas em que compro duas caixas a cada consulta. Não o tomo com freqüência, então, tinha um certo estoque. Peguei cada vidro, arranquei com o dentes o sistema de conta-gotas e despejei o conteúdo de todos em um copo.

A superdose de Rivotril® (clonazepam) em geral se manifesta por depressão do sistema nervoso central, em graus variáveis, desde sonolência , xonfusão mental, ataxia, excitação, lentidão de movimentos, disartria e nistagmo. Coma, hipotensão e depressão respiratória ocorrem ocasionalmente, mas são clinicamente tratáveis e reversíveis se apenas o Rivotril® (clonazepam) tiver sido ingerido sozinho. Se ocorrer coma, tem duração de poucas horas. (…) Pacientes em tratamento com Rivotril® (clonazepam) não devem em hipótese alguma consumir álcool uma vez que isto pode reduzir a eficácia do remédio ou produzir efeitos indesejáveis imprevisíveis.

Deixei o copo cheio de vários frascos ao lado da cama, no criado-mudo. Deitei e fumei um cigarro atrás do outro, refletindo sobre a situação. Ainda estava meio tonta pelo vinho que tinha tomado de uma só vez. Não parava de olhar para a lâmpada no teto. Olhei novamente praquele líquido denso acumulado no copo. Odeio o gosto desse remédio. Resolvi diluir no pouco de água que ainda sobrava na garrafa pet. O líquido denso dançava, e à contra-luz, tinha um brilho interessante. Parecia que havia capturado uma água-viva. Deixei a mistura mais uma vez ao meu lado, enquanto parei para mais um par de cigarros, deitada observando a lâmpada, pensando se valia a pena ou não. Provavelmente não morreria, apenas dormiria por uma semana, ou, se entrasse em coma e não conseguisse respirar, não teria ninguém pra me virar e, assim, eu realmente morreria. Estupidamente.

Eu não via nada além da lâmpada ao alto. Eu não via um futuro, Eu não via ninguém. Eu morreria só. Quem sabe quantos dias até alguém se dignar a arrombar o apartamento e encontrar o meu corpo deformado pela morte, sem ao menos um bilhete. Suicidas gostam de bilhetes, de pedir desculpas, de culpar os outros. Não sentia vontade de escrever nada. Tomei uns dois goles do veneno de água-viva sabor pêssego, pra me acalmar. Peguei um dos livros que estava lendo, “O tempo do cão - a atualidade das depressões” de Maria Rita Kehl. Leria o livro todo e aí tomaria enfim a decisão, pra entender o meu problema, ou tentar. No século XIX, seria um gênio. Aqui, ao início da segunda década do século XXI, sou apenas mais uma com uma doença extremamente comum, comumente mal diagnosticada. Ou então um gênio que caía na vala comum, pela mudança dos tempos.

As letras foram borrando, e eu vi que teria de adiar a soluçã (?) do quebra-cabeças. Deitei. Dormi. O sono mais profundo (coma?) que nem ouvi o telefone tocar, do amante extirpado a quem mandei algumas SMS de esclarecimento (as coisas nunca se resolvem, aparentemente), que depois me acusou de estar fazendo tudo só para chamar a atenção e deixá-lo preocupado. É, o melhor foi ter terminado mesmo.

Acordei primeiro às 14h30, e mandei uma mensagem dizendo que não aparecia no trabalho, algo que pelo jeito talvez se torne permanente. Dormi novamente, totalmente tonta, para a duras penas levantar às 20h30. A primeira elevação resultou em uma queda brusca. A segunda também. Mas consegui me colocar em pé apesar da dor-de-cabeça e da tontura. Posso ter entrado em coma várias vezes, como a bula diz. E não vi nada, não senti nada. Foi um sono sem sonhos. Será que isso é coisa dos ateus ou realmente aquilo que chamam deus não existe?

E que estupidez, que estupidez. Minha vida vale mais do que qualquer crise e eu tenho muito a ler, muito a escrever, muito a viver, muito a conhecer. Desculpe pelo final auto-ajuda, mas that’s the way it is. E que eu sempre saia vitoriosa ante o Demôno do Meio Dia.

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Dança Demoníaca

Adam Sebastian West

Adam Sebastian West

Salta uma veia no pescoço
Sobe até a fronte
Rodopia o ar na caixa torácica
Pula um grito mudo da garganta
Reúnem-se as lágrimas
Como saltam, como correm!
O ritmo descompassado
da respiração que urge
Arrebenta o peito
E a estrela se joga ao ar

Mas não há ninguém para acolher-lhe

Rodopio em falso
Explosão catártica
catastrófica queda.
E no silêncio dos soluços
Irrompe o nada.

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Meu amor: requiem aeternam dona eis

Meu amor me descarta junto às minhas juras de desamor. Melhor assim, posto que é chama que arde como bem entender. Meu amor tinha por mim um amor tão profundo quanto uma folha Pólen Soft. Meu amor a mim amava em versos medíocres e pouco inspirados. Meu amor aceitava meus presentes como uma criança. Meu amor é uma criança que logo se cansa, jogando-me no baú dos brinquedos gastos. Meu amor em questão de segundos encontrará outro amor para chamar de seu (se é que já não o havia encontrado, enquanto seguia nominando-me como tal). Meu amor é adepto do amor raso que cabe em qualquer ser disposto a tal nominação. Amor raso pelo qual qualquer ser desejoso consegue se guiar, o amor fácil das prostitutas de clientes fiéis.

E meu amor meu não mais é. Meu amor não mais deverá existir. Até que venha enfim um meu amor digno da ferroada psicotrópica nas entranhas que é o que afinal denomino Amor.

Confutatis maledictis
Flammis acribus addictis
Voca me cum benedictis

O fogo purifica.

O fogo purifica.

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Sindicato dos microcontos

nick knight

nick knight

Alexander

Oh, meu doce Alexander!
Tez tão branca de sardas canela!
Encha minha boca de gozo branco
E livrai-me dos pensamentos de desprezo.

Imaginário

E voltei a ser a mulher do músico.
Mas o músico não existia.

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