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Afonia

Ye Rin Mok

Ye Rin Mok

Vago ao meu lado
O árido território de densidade inabalada
Das noites espaçosas
Em que a falta é presente anônimo
Pelos intocáveis aniversários
Ecoando o estalar do trinco
Ao fechar-se mais uma porta.

Bastar-se não é o bastante
Quando os sentidos cansados são imunes
À apreensão de novas cores;
Monocromia dos dias imperceptíveis
Calada na noite de uma nota só.

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Flanúria

Jolijn Snijders

Jolijn Snijders

Amo a cidade, mas a cidade não me ama. Vago por suas ruas sem objetivo concreto senão o de passar o tempo a admirá-la. Mas quando me canso, não encontro um canto onde repousar minhas pernas latejantes. Um canto qualquer onde não seja preciso apresentar credenciais de troca comercial e onde possa praticar livremente os hábitos que sei que me causarão morte prematura, mas que por enquanto compensam no prazer.

Esses cantos já existiram, bem sei, mas estão sendo sumariamente destruídos, pois a cidade ingrata parece amar quem não a ama: quem vive trancafiado em pequenas fortalezas de conforto e de lá se locomove em fortes bolhas anti-realidade. Eles não retribuem seu amor, mal a olham na cara! Mas suas exigências sempre serão atendidas e seus medos prontamente borrados, e todo canto que junte aqueles que lhe causam estranheza ameaçadora, talvez até eu mesmo incluso nesta nuvem negra, deve ser imediatamente limpos e interditados. Tais seres sinistros e tão desencobertados não têm o direito de parar, de se acomodar em suas cercanias, de por qualquer engano do espaço-tempo compartilharem o mesmo cenário deseus objetivos tão sérios, e são obrigados a seguir caminhando, a sentar-se em qualquer lugar quando e somente quando as pernas falharem, pois não há outra opção. Os incomodantes que se movam.

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Panes circenses

Por que alguém tem de morrer?
- Para que as pessoas valorizem a vida…
- E quem vai morrer?
- O poeta, o visionário…

O luto: algo nos foi tirado e isso causa raiva, frustração, tristeza, sentimento de impotência. De fato, não há nada a fazer a não ser lamentar, se rebelar em vão, lançar maldições ao vento, tudo o que estiver ao alcance e parecer o mais certo no momento para tampar o enorme buraco que ficou no meio do caminho, atrapalhando seu curso. Haverá algo a ser cruzado, uma continuação para tudo isso? você se pergunta com amargor. E as almas calejadas de lutos sempre comprovam o que o presente faz ser tão custoso acreditar. No final, vemos que é um processo natural, e não há nada de desmerecedor nem de amenizador em tal constatação.

Mas casos particulares conseguem transformar o natural e tirar o sentido de nossos campos de visão. A transformação da natureza, esse legado da humanidade… A morte pelas mãos do tempo, a morte pelas mãos da deterioração (abarcando também a deterioração mental que torna o fardo insuportável a quem o carrega - e isso, não sejamos injustos ou egoístas, só o mesmo conhece), a morte pelas mãos dos instintos, a morte pelas leis do movimento e inércia. Estas mãos apedrejadoras são cruelmente julgadas e contra elas nada podemos fazer, fato, mas diante delas temos de nos redimir, pois elas são de alguma forma parte do mundo natural.

Porém, algo grita incongruências e incompreensibilidade diante de interrupções súbitas. Uma arma em punho, seguida de fogo e cheiro de pólvora. Uma lâmina a perfurar vulgarmente camadas de carne e músculo. Sangue. Nada além da pulsão de destruição. Nada além do homem contra si mesmo. Sem subterfúgios ideológicos, políticos, palavras de ordem - não que elas justifiquem coisa alguma, mas elas ao menos são algo… inteligível. Como entender um assassino fugido vulgar, sem antecedentes, sem plano, sem cartas, sem notas, sem declarações, sem ameaças, sem respaldos, sem bases, sem nada com que tentasse sustentar sua covardia? Como atravessar o vazio? Como preencher os espaços vazios?

Alguém morreu, não fez o mínimo sentido.
Como valorizar a vida sob o medo constante de que alguém venha tirá-la repentinamente?

O ser humano, esta criatura que muitos (humanos, claro) denominam estágio máximo da evolução, vem equipado com um sistema de reconhecimento de padrões que tem como um dos efeitos colaterais, buscar padrões em tudo. Daí enxergar dois olhinhos e uma boca em tomadas elétricas, por exemplo. Entre o nascer e o morrer, há uma porção de detalhes. Não sejamos como os da sala de jantar e ocupemo-nos deles: esta parece ser a chave. E muito provavelmente é.

homenagem de Laerte e Angeli a Glauco e seu filho Raoni, assassinados na madrugada do dia 12 por um infeliz que dizia que era Jesus Cristo (pega a senha e entra na fila, meu filho), segundo o divulgado até agora. Morte estúpida e sem explicação de, crenças à parte, um cara foda que marcou gerações e a cultura popular brasileira. Que continue impresso na eternidade.

Homenagem de Laerte e Angeli a Glauco e seu filho Raoni, assassinados na madrugada do dia 12 por um infeliz que dizia que era Jesus Cristo (pega a senha e entra na fila, meu filho), segundo o divulgado até agora. Morte estúpida e sem explicação de, crenças à parte, um cara foda que marcou gerações e a cultura popular brasileira. Que seu nome e sua verve continuem impressos na eternidade.

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Neptunian Blues that Eyes Forgot

Anastasia Volkova

Anastasia Volkova

Esses sons que vibram por todo o meu corpo a partir das cores que vejo diante dos meus olhos nessa escuridão milimetricamente calculada para simular o desleixo da informalidade casual moderna combinam tão bem com a sua boca emudecida se movendo freneticamente, tentando em vão me dizer algo que de fato nada importará nem acrescentará - pois já o encontrei - que mal me seguro e quando minhas pupilas voltam a funcionar detrás das pálpebras que se recolheram para a lubrificação instintiva da piscadela, o ambiente é outro e é a escuridão da proximidade da sua pele morna e deliciosamente familiar que encontro, já com o gosto da sua adrenalina somada à minha e a brisa oceânica dos seus cabelos brincando nos meus pulmões.

Deixemos os fósseis da dor lá onde vão dormir os ônibus, elevemo-nos à máxima potência. Não me preocupa que sua tenha já tenha me atado, estou diante de Netuno.

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Ração

imagem de tumbler não tem dono

imagem de tumbler não tem dono

Frustrado e mais uma vez marcado por cicatrizes diante dos espelhos quebrados da decepção d’amor, o jovem coração se apega ao não-realizado e ao imaginado para teimar em sua masoquista busca pelo sentimento narcísico de ser amado.

O “e se..” ocupa então o lugar de tudo o que foi vivido, reinventando-se até mesmo o que já foi passado, posto de lado, racionalizado e (ao menos pensava-se) devidamente superado, com todos os prós devidamente realçados.

E o inventado, ora pois, isso de tão isuperável, nem há como existir!

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Teatro de Sombras

Detrás das pálpebras polínicas de papel dançavam quentes ondas aromáticas da vela guardada pelo moderno lampião à moda antiga. A platéia já encantada aguardava as tão alardeadas figuras negras a serem projetadas. Oh, não sejamos assim tão racionais. É mágica, pura mágica. Estamos aguardando a mágica, o espetáculo.

Eis que algo vai tomando corpo diante de todos os guardados olhos presentes. Um pássaro? Não, não é apenas um pássaro! A mágica que entra pelas narinas e faz-se circular por todo o corpo comunica que das cinzas surge uma linda fênix, que alça um divino vôo por toda a tela. E no que seria um pouso desdobra-se uma perna perfeitamente humana em ponta, abertura completa, que começa a rodopiar e hipnotizar com movimentos suaves e leveza a profundeza de todos os corações presentes. Mais formas e disformas vão se redesdobrando diante do público maravilhado e eles querem mais e mais, o cheiro intenso e inebriante dominando por completo todo o ambiente. Demasiado o poder daquele imaginário, porém, a tal ponto de deixar a todos confusos e sedentos por utilizar os outros sentidos na experiência. Não lhes fora proibido nada, apenas dada a ordem de que fechassem os olhos no início da apresentação, o que fora mantido até aquele momento, até o exato momento em que o primeiro ser extasiado perdeu totalmente o controle e

neste momento, que veio como um raio, a vela se apagou, o aroma se dispersou, a peça encerrou sua temporada e o teatro ruiu. Os outros presentes assustaram-se com a presença antes imperceptível de outros indivíduos no recinto e, às ingênuas almas virginais que nunca foram tocadas pelo sentimento da solidão acompanhada, foi dado o primeiro golpe de realidade.

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homini lupus

foto de tumblr... sorry

foto de tumblr... sorry

Sou um animal numa selva surreal de carne, metal e concreto. Me esquivo por esquinas escuras e umbrais, árvores escassas e arranhacéus que não impõem nada além de puramente sombra e vazamentos de ar-condicionado. Desço até a ilusão de centro da Terra onde milhares de pessoas caminham com olhares desatentos para locais de desatenção assistida, e por minhas pupilas são atentamente degustadas. A iluminação dos trens modernos é mais agradável que a dos antigos, porém o cheiro de hospital esterilizado não me agrada. Há pouco fluido espectral impresso nas paredes e pouca animalidade nesses vagões novos, falta de uso que ainda será remediada. Mas minhas presas estão lá, calmamente alojadas, e é isso que importa. Cada pescoço bem exposto em dias de calor constante, cada tornozelo, cada nódulo que articula as mãos cansadas de segurar as informações banais que pouco entretém, mas dão repouso para os olhos e é isso com que se importam, não olhar para o lado, para frente, para ninguém, não dar espaço, manter-se em seu caminho.  Talvez tenham medo de seus olhos encontrarem meus olhos hambrientos e por eles serem dragados, imperdoavelmente e inevitavelmente seduzidos, conduzidos à minha boca de hálito quente e doce e sem se dar conta de como, desaparecer no meio da noite, mesmo a última olhada no relógio ter registrado meio dia. Ah, mas quanta presunção, a minha…

Mas o que seria de mim sem ela, a minha querida presunção? Apenas mais um animal selvagem, longe de minhas queridas presas, trancafiado em uma jaula, hostilizado. Assim estou muito bem disfarçado, posso me passar muito bem como um deles, aliás, como algo superior à maioria deles, melhor educado, melhor vestido, mais simpático, melhor humorado, olhem como sorrio, como dou passagem, como ofereço meu lugar. Que belíssima camuflagem, que belíssima vista. Até melhor passar desapercebido, melhor ainda atrair olhares, ser abordado, um drink ou dois, isso, se aproxime. Não eu não mordo, quer que eu morda? Que tenra essa sua pele, que belíssima textura…

Sou um animal numa selva surreal de carne, metal e concreto. Domínio da arte do sensorial e do secreto.

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Faxina

Milou Neleen

Milou Neleen

Desde o ano passado, a mesma roupa de cama, a mesma capa sobre o sofá, os mesmos papéis no lixo, o mesmo pó sobre o chão. O caos reina.

Mas ainda de fevereiro não chegamos nem à metade.

Todo cambia, todo cambiado. O perfume de roupas limpas por toda a cama e pelo sofá que já não estava atolado de coisas que já eram dadas como perdidas em meio à bagunça, o chão que já brilhava de novo e não imprimia marcas nos pés de quem se atrevia a caminhar sobre ele descalço. A lixeira do quarto, que nem de saco era guarnecida por ser usada apenas de vez em quando (o que conferia ao fato de estar acumulada o caráter de um desleixo de milênios) finalmente vazia…

… não fosse por um pequeno detalhe.

Pode ter sido o vento, um esbarrão, o fio do aspirador, um espectro, uma chacoalhada no véu de Maia; ao fundo da lixeira, perfeitamente alojada de maneira a passar a impressão de que me mirava, estava minha figura impressa em cores vívidas e papel fosco com borda branca de 1mm, sorrindo maliciosamente com uma sobrancelha levantada. Não muito distante estava a data em que a foto havia sido tirada, ao contrário das pessoas ao redor e do espírito da retratada naquela ocasião - assim como em muitas das outras fotos espalhadas pelo pequeno apartamento.

Parou por um minuto diante daquele momento. A retratada devolveu ao retrato a mesma expressão que ele lhe havia roubado e voltou sua mente ao que ainda havia por fazer.

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Emaranhado

Sergey Loie

Sergey Loie

Cabelos cabelos pêlos por todos os lados. Negros cabelos avermelhados tufos embolados nos cantos nos meios nos ralos nos pés debaixo da cama das cadeiras do sofá. Cabelos não faltam na cabeça, mas também não faltam aos pés. Cada passo descobre um novo tufo, caminho de cabelos novelos, que levam ao fim de um labirinto imaginário. Juntando fio por fio, será que surge o fim da noite, a resposta do enigma? Será possível tecer uma teia que forneça um mapa de tesouro? Uma capa de invisibilidade? Um cobertor para proteger do frio d’alma? Um vestido de noiva enlutada?

Penteio os cabelos com os dedos e surgem mais e mais pelo chão e se amontoam os cabelos em cabelos e cabelos e se juntam todos os cabelos que são pele morta apesar das propagandas e dos shampoos de fato os fazerem brilhantes e sedosos e vai subindo e subindo uma torre de cabelos e cabelos que vão se transformando aos poucos se dividindo tomando uma forma e ao me virar dou um grito ao me ver tal como sou.

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Revoluções 141

Daikichi Amano

Daikichi Amano

Primeiro Império

Ovos, pulpas, larvas e moscas, o ciclo completo da vida derivada do podre dividia o espaço com os fungos cujas cores descolorem a paleta das frutas e legumes. O cheiro da colônia de férias impregnava os tecidos curtidos pelo vento que apenas secaria se as roupas fossem substituídas, mas há tempos eram as mesmas.

Era de se estranhar que a pequena porção de terra envasada no parapeito da janela não houvesse ainda se tornado propriedade de ervas daninhas, mas a observação atenta dos arredores já anunciava que, em meio ao concreto, não sobrava espaço para a vida, já totalmente drenada pela planta seca que em vão tentara sobreviver; além do que, àquela altura, as sementes paraquedistas precisariam renunciar à gravidade para germinar.

O território era apenas das formas de vida marginalizadas e repelidas, império que em pouco tempo cumpriria o seu destino decadente rumo ao desmoronamento por falta de recursos. Canibalismo e morte lenta ou o fim rápido: eram essas as opções dos seres abandonados por seu deus, que nas horas finais não ofereceria a si mesmo como oferenda misericordiosa, pois dali estava longe, para nunca mais voltar.

Sergey Loie

Sergey Loie

Segundo Império

O cheiro de putrefação atiçou a ira dos deuses. Sim, eles retornaram, até a vida divina é injusta. Um erro tal descontrole. Violentamente, cada casa, cada casta foi removida e jogada às bocas destruidoras. Os bravos resistentes que se apegavam à superfície lisa e branca daquele pequeno cosmos foram sumariamente mortos por rajadas desinfetantes, esfregados, expatriados, reduzidos a nada. Higienização orgânica. Daquele império só sobrou a inócua terra envasada com a planta morta, de marco às gerações seguintes.

Mas a reforma se limitou a isso. O deus designado aos cuidados do império pouco se importava com aquele lugar e suas obrigações, estando sua cabeça, e até mesmo a sua essência bailando em outras coordenadas. Fez-se a limpeza primordial, mas onde que não se havia feito revoluções não fora incomodado. Só se acumulavam coisas, trazidas de fora. O império do caos. Parecia até não haver deus, ou deuses. Sua presença se denunciava por mudanças discretas de tempos em tempos, acúmulos, adições, subtrações.

O deus estava mais preocupado consigo mesmo para se ligar ao cosmos. Deixava que tudo acontecesse ao modo que o vento desejasse. Era um aquário de formigas. Mas não havia formigas, a princípio. Apenas as moscas, algumas sobreviventes ou que renasciam das cinzas do lixo mal recolhido, a primeira barata que foi devidamente exterminada, os pernilongos que finalmente surgiam com o calor do prelúdio do fim. Pó e cinzas por toda parte, pele morta em fios que se acumulavam em torno do ralo, quase formando uma nova cabeça, um novo deus, que quem sabe seria talvez um pouco menos egoísta, já que seria desprovido de eu.

E nesse ambiente calmo, novas formas de vida organizavam uma revolução mais inteligente que a do primeiro império. Era silenciosa, às escondidas, passando-se desapercebida. Aproveitava-se das frestas escondidas pela necessidade de preservação diante do mau tempo. Como surgiam não se sabe, já que considerava-se os arredores estéreis, mas estavam lá. Não só no mofo das paredes do banheiro, que já era justificável e previsível, sobrevivia por pura falta de vontade de ser eliminada. Aquela era uma forma de vida estúpida, facilmente removível, com uma só esfregada e já não estaria mais lá, portanto, não lhe dava muita importância, o deus ególatra. Mas lá, longe de seus olhos temerosos pela água que não cessava, crescia a nova revolução. Seus pilares eram uma pequena e inexpressiva planta, quebrada pelo movimento da porta ao primeiro raio de sol; e um ser, que poderia ao mesmo tempo ser um ou dois, ou quiçá vários, mas que com certeza era da mesma espécie: alaranjado, cor de manga, tinha até uns fiapos.

O deus ficou um tanto quanto preocupado, mas nada fez. Deixou a varanda aberta para que o sol cuidasse daquilo que talvez só tivesse surgido por conta da umidade. Mal sabia que estava diante da possibilidade do surgimento de um terceiro império… Ou não?

Sergey Loie

Sergey Loie

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