Melancolina
Vale ou planície, é aos pés que você está. A subida parece impossível com tanto cansaço. Mas às vezes a altitute não é tanta, e pode até ter uma trilha para estimular. Ou talvez você ache que é hora de colocar as pernas para funcionar, finalmente. Isso não é jeito de se viver, sob sua sombra. Está bem diante dos seus olhos. É um mistério o que há lá no alto.
É hora de subir. Há luz lá em cima, que nunca cessa. Longa subida, mas nada íngreme.
O topo. Aqui o ar é diferente. Mexe com a sua cabeça. Sou o deus da colina. Tenho o mundo aos meus pés. Há o além. É a isso que chamam esperança? Quero conhecê-la, tomar vinho e jogar cartas com ela.
Mas tenho de deixar de ser o deus. Não importa se aqui é sempre iluminado, a luz está me cegando e murchando minha pele. Quero que meus outros sentidos, além da visão, conheçam o outro lado.
E nisso, sigo o caminho. Mas acabo novamente preso ao vale.
Me
lan
co
lu
na
Amanheço, mesmo que tarde ou noite lá fora. O peso da inércia me pede pra ficar. Sou obediente,
mais um pouquinho não fará mal.
O preparo. Ossos a estalar. O horizontal só conhece um horizonte. Hora de buscar os outros possíveis.
Um impulso.
Lentamente, me ponho em pé. O peso da inércia contra o peso da gravidade. A segunda vence.
Tudo se move. Ponho-me em movimento. Ereto como um obelisco. Postura de bailarina.
Danço ao longo do dia, enquanto a gravidade se acumula entre as vértebras, instigando uma contra a outra.
Cabeça, tronco, joelho e pé. É disso que sou feito, diz meu corpo. Não agüento mais. Tenho de voltar.
Qualquer canto é digno de tão indigna carcaça, que nem parece reconhecer sua juventude.
E volto ao horizonte imóvel.
MELANCOLÉRICA
Não suporto!
Não quero!
Saia!
Me solta!
Chega!
Basta!
Destrua-me!
Destruo-me, então!
Nada!
Nada!
Nada!
Melancólon
Fétida.
Tóxica.
Que seja expelida
Essa vida de merda!
Melancronista
Era uma tarde de verão. Mas também poderia ser uma de inverno. Ou talvez de outono. As estações por mim passavam sem que eu notasse. Eu sem você. Dolorosa constatação. Enfim o fim.
Melancólicas
Dor pontual.
Dor cíclica.
Te lembra do tempo.
Te lembra que um mês
se passou.
E mais outro.
Você é dor.
A dor é de quem sente.
O triunfo
ancestral da derrota do cio.
Sempre passa
pra sempre voltar.
Melancorista
A dança, as luzes, os olhares de cobiça. A glória, o rouge. Rubro desejo. Puro movimento.
Inspirada transpiração.
Até apagarem-se as luzes. Esvaziarem-se as mesas. Lágrimas demaquilantesdiante de um rasgo na fantasia. Acabou-se a música. Apaga-se a luz.
Melancolista
A respiração num suspiro. Hora de entrar em ação. Transformar o mecânico em sonoro,
ir contra as paredes. Começa suave, baixinho. Preste atenção, ouvidos atentos.
A gravidade do grave. Para lembrar de onde se está.
De repente, o agudo. Movimento acelerado. Inquietante. Vibram as cordas das marionetes. Arrebatamento de sensações. Atingindo o pico. Tremores dentro das caixas.
Para logo em seguida desabar. Agravantemente grave. E o som cessa.
Haverá uma nova música?
Melancoleira
Poucos metros quadrados.
Não importa para onde vá.
Em diagonal, de trás pra fre
nte.
Serão sempre círculos.
Será sempre o mesmo.
Nosso eterno retorno
em escala desesperante.
Hora da comida.
Toque de recolher.
Você está preso.
A liberdade é perder
a cabeça.
Cortando-se a cabeça.
Não há mais coleira.
Mas também não há mais nada.
ilustração de Eveline Tarunadjaia, sobre foto que eu não lembro de onde roubei; mas apliquei uns efeitinhos, não me processe.
on Nov 5th, 2009 at 2:34 am
Intensos… caíram como uma luva (vermelha) nesses meus dias tão ocres;
gostei da formatação à moda da poesia concreta (num espaço tão virtual!)
parabéns ;)
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on Nov 5th, 2009 at 2:37 am
FANTÁSTICO. todos os derredores ao tema. salvei no delicious :)
me prendi no Melancolista. talvez pela minha paixão pelos sons. também porque vejo a melancolia como um rio.
(em tempo: http://www.verbeat.org/blogs/bereteando/2005/05/melancolia_mela.html)
o/
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on Nov 5th, 2009 at 12:42 pm
Deliciosamente fantástico de ler… Deu até vontade de brincar. Deixo a brincadeira:
melo
com a luna
a melancolia
ciclíca
dos vinte
e oito
dias
horas esparramadas
na (in)violação
sagrada
do sangue
melancólico
colérico
a lança
imaginosa
distante, mas desejosa
de ultrapassar
a carne lunar
da mais melancólica
tristeza
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on Nov 5th, 2009 at 6:52 pm
Meu amor… desse aqui não pude me abster de registrar um comentário. Você inventou um algo. É a melhor peça poética que li este ano. Está lindo, pura essência, mel do melhor. Obra de uma Camila torta que diz: vai, anjo, ser droite na morte! Parabéns. You did it. Passado a limpo, cometeu o futuro. To be or not to be (continued)?
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on Nov 5th, 2009 at 10:49 pm
belíssima melamorfose
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on Nov 6th, 2009 at 3:54 am
E [depois de tudo que dá para encaixar, para ver] ainda serve de manual - shared.
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on Nov 6th, 2009 at 3:52 pm
Lisbon Revisited feelings
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on Nov 7th, 2009 at 5:05 pm
OPS marcando mais e mais pontos! parabéns pela casa nova! :D
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on Nov 7th, 2009 at 5:16 pm
Êêê, tá no ops, legal! Aparece lá no seu vizinho Guga (www.googala.opsblog.org) pra já ficar tudo em família :)
Besos de buenas vindas social club
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on Nov 10th, 2009 at 10:28 am
cólica de tanto rir…
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on Nov 15th, 2009 at 9:02 am
bárbaro. amay!
sem mais pra não estragar o q acabei de ler… :)
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on Feb 27th, 2010 at 10:26 pm
Hello, as you may already noted I am new here.
In first steps it is very good if somebody supports you, so hope to meet friendly and helpful people here. Let me know if I can help you.
Thanks in advance and good luck! :)
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