[...]foi constatado que a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar
O Comunicado Oficial
[...](a aluna) sempre gostou de provocar os meninos. O problema não era a roupa, mas a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar.
Algoz Representante
Está iniciado o Julgamento; pura formalidade, o veredicto já é fixo na mente dos algozes. Mas que graça teria se não houvesse o banquete, o desaguar do represado, os fogos, os cânticos, o incenso espectral?
Ao centro, encolhida e exausta, jaz a ré com a carne exposta e a alma em frangalhos. Cercam-lhe os excitados espectadores, de olhos brilhantes, as bocas arreganhadas salivantes, embriagados por êxtases primais, os urros e gritos dando a sensação de que havia ali o dobro de pessoas reunidas. Em posição central, um passo à frente dos demais e encarando a condenada figura, está o Juiz, vestindo a mascára da austeridade na tentativa de esconder o desejo que arde em suas entranhas e o une à turba. Apinhada junto aos ombros do Juiz está a Congregação: as Irmãs, cuja dissimulada submissão por eras lhes garantiu o controle da vida da Comunidade. A paciência e sagacidade que lhes era natural garantiram o encontro do momento certo para enfim executar a ação há muito desejada.
Aquela trêmula e frágil criatura encurralada à sua frente há tempos preocupava a Congregação, desde o Ãnicio de sua preseça na pequena aldeia. Figura encantadora, que com passos graciosos e fronte viçosa era notável por onde passasse, com um brilho que repercutia nos olhos dos nobres e pobres senhores da Aldeia. Musa da casta das que foram abolidas pela nova Ordem vigente, era uma clara e perigosÃssima ameaça ao equilÃbrio da Comunidade. Sua presença evocava a perda de controle, a agitação, o desvio do rebanho. Ela própria tinha conhecimento dos efeitos causados por seus dotes e deles se orgulhava: a exuberância era o seu dom e, como tal, não deveria ser aprisionada, pois lá estava a manifestação da virtuose do Criador. Era dever celebrá-la, como toda virtude das criaturas que vivem sob o Seu véu — assim ela pensava, e assim ela agia.
A muitas das Irmãs não faltava graça equivalente, ou até mesmo superior, mas não compartilhavam de sua um tanto quanto inocente idéia de demonstrar gratidão divina. Represavam-se sob as barragens do conceito de pecado, decência, das relatividades do valor, do que era visto como melhor para a coordenação do rebanho, o equilÃbrio das aparências e comportamentos. Cobiçavam-na, e sabia o quanto ela era cobiçada pelos Irmãos; uma cobiça diferente, porém, pois nelas alimentava mais o ódio do que o desejo. Era preciso aniquilá-la, afastar a fruta maculada das sadias. Mas tal ato não deveria soar gratuito, fruto da inveja e do rancor uterino: era preciso encontrar uma oportunidade adequada à condução do plano.
Numa noite quente de verão, não se contendo de ansiedade pelo retorno de seu amado após uma longa peregrinação, a jovem não encontrou nenhum mal em dar um passeio até o lago próximo à sua cabana para acalmar o espÃrito. Saltitava e cantava uma alegre melodia comum ao seu povoado de origem. Nadou, cantou, e a água que transformou seus trajes em parte de sua pele não conseguiu apagar por completo a chama da expectativa do reencontro. Fez o caminho de volta no mesmo ânimo, saltitando, entoando o cântico familiar, para levar ao mundo dos sonhos a felicidade incontida. Mal sabia que aquele seria seu último sono tranqüilo. Fora traÃda pela falsa segurança de que percorreria o trajeto de volta só. Não percebeu os olhares escandalizados de dois casais que voltavam de uma reunião nas redondezas, a observavando por entre as árvores.
Finalmente a virtude teria a sua glória! Logo espalhou-se por todo o povoado de que estava infiltrada entre eles uma bruxa, flagrada em um ritual de adoração a seus deuses pagãos. A Congregação encontrara sua tão almejada chance. Teciam histórias fantásticas para complementar o episódio e temperar a história: era uma sedutora de crianças; em sua casa havia uma coleção de animais mortos; toda noite de lua cheia dançava nua, sem o menor pudor, evocando o mal; era a causa das plantações não estarem prosperando; se oferecia tentando os Irmãos quando o marido estava ausente; aliás, era ele uma vÃtima de algum feitiço, pois homem tão honesto e gentil jamais se juntaria a uma bruxa suja.
Em poucos dias, estava lá a moça no centro do cÃrculo de julgamento, sendo gradualmente desnuda para atiçar os animalescos e sádicos que há tempos atrás a recebiam com sorrisos e almoços em solidariedade à sua solidão de mulher de viajante. Justificam a humilhação alegando que havia em seu corpo as marcas da heresia. Qualquer pinta, mancha, pele levemente acastanhada ou avermelhada era a prova cabal de que estavam certos e se livrariam de um grande mal. Bruxa! Bruxa! vociferava a legião de bocas frenéticas em seu triunfo. Seria enfim banida a erva daninha que salgava aquele tão puro solo.
TraÃda, injustiçada, clamava ao Pai que a acordasse de tal pesadelo, era inocente, o Senhor sabia, viria uma chuva para que todos voltassem a si, viria um sinal, viria seu amado em seu resgate. Mas toda a sua esperança se esvaiu a uma simples visão: entre a multidão raivosa estava ele, seu marido querido, o único que poderia tesmunhar a seu favor e esclarecer o mal entendido. Queimava-a com os olhos, e ela não conseguia acreditar que o tivessem convencido de quaisquer inverdades; é certo que ele se ausentava muito em suas peregrinações, mas ele a conhecia, ele a tirou de seu povoado para morar junto dele, como pôde? Suplicou-lhe em silêncio, dirigindo-lhe o mais triste de todos os olhares já vistos na história dos homens. De nada adiantara. Continuava a atirar-lhe pedras, era parte da turba dos vigilantes do Pecado.
Sucumbiu. Já estava morta antes mesmo das primeiras chamas lhe chamuscarem a pele.








on Nov 9th, 2009 at 12:00 am
Muito bom.
Nem a uniban defendeu. Preferiu excomungar. É sempre mais facil do que tentar entender o quadro todo.
Toda unanimidade é burra. Eu acho também.
ps: OPSBLOG???
[Reply]
on Nov 9th, 2009 at 8:17 am
Entrar rasgando.
Benvenida à casa (como já disse, sou colunista, e só não tenho blog aqui por causa que não consigo aplicar ‘meu design’ aqui por enquanto).
Nuvem de gafanhotos saindo das palavras, aliás.
[Reply]
on Nov 9th, 2009 at 8:24 am
[...] sangre, literatura da melhor qualidade, inaugurou a nova casa com uma parábola sobre a garota expulsa de uma pseudo [...]