Sexta-feira. Noite. A rua cheia de gente, os bares cheios de barulho, entre encontros e desencontros sentimentos dançando em forma de pessoas — mais ou menos sublimes, de acordo com o nível de álcool correndo pelas veias do espectador. Sentimentos? São um bando de animais, guiados por feromônios, loucos pra acasalar com seus pares perfeitos, combinar uns genes e pagar um aborto clandestino ou outro, é impossível imaginar esse povo educando uma criança. Animais não-procriadores, apenas praticantes, passando pelos sentimentos alheios, assim, só porque um dia sentiram uma coceguinha no estômago… Vaca!
Pedro passou o dia inteiro olhando pro teto da sala, fumando um cigarro atrás do outro no sofá. Não foi à faculdade, deu uma desculpa esfarrapada no trabalho e passou o dia i+n+t+e+i+r+o deitado no sofá, olhando pro teto, levantando ocasionalmente pra se ocupar com as necessidades biológicas jorrantes por causa do álcool que, mesmo quente, ele insistia em beber. O teto branco, a princípio visão desconfortável pela luz excessiva que entrava pela varanda, logo se tornou apenas um teto branco ao calibrar das pupilas; em seguida, um teto meio alaranjado, meio amarelo (o cabelo dela, quando entrava na água, parecia macarrão na panela, amarelo, mole, ondulante, e o redor todo em ebulição…); depois, ficou meio cinza, meio branco, dependendo da luz dos carros que passavam na rua, e vez ou outra uma silhueta se projetava disforme e vinha à cabeça a caverna de Platão, esses gregos, bando de pederastas. E esses professores de colégio, outros pederastas, que ficam colocando essas coisas na nossa cabeça e a gente não pode ver nenhuma sombrinha na parede que já lembra dessa porra.
Silêncio no apartamento, só o burburinho do vizinho. Sexta-feira, aposto que esse povo vai fazer aquelas festinhas estúpidas. Não deu outra, logo começou a música. Não importa se o síndico não dava a mínima e os outros vizinhos eram um bando de baderneiros da mesma estirpe, o som tá sempre alto demais. Filhos da puta. Como se alguma coisa merecesse ser celebrada… Ih, já começou a trilha sonora de festa de Centro Acadêmico. Esse povo de Humanas adora uma bicho-grilisse, vão se foder todos. Se não tivesse preso nesse sofá cheio de cabelo e cinza de cigarro, ia lá cobrar meu imposto de bom-vizinho-que-não-liga-pra-festa-do-lado e descolava ao menos um baseadinho. Às vezes a gente até ficava, filava uma cervejinha (mesmo sendo Itaipava, bando de pobre), confraternizava, ela gostava dessas músicas aí de eme-pê-bê, samba-rock, essas coisas de cultura brasileira, uhu! (meu ovo esquerdo!).
O som foi aumentando, o cheirinho invadindo o apartamento pela janela do quarto e ele até que queria, mas se levantar estava fora de questão. O mundo tá muito pesado pra isso. Aquela vagabunda me jogou uma caçamba cheia de concreto nas costas. Ou melhor, na cabeça. Todo homem é corno. Se não é, já foi ou será. É a sina da gente, vê um rabinho de saia, o rabinho de saia não sai da nossa cabeça, a gente esquece dos outros rabos e das outras saias e já viu: fo-deu. Encoleirado. Passa uns meses e a gente vira boi capado. E chifrudo.
Puta que pariu, começou a violinha. “Morre o burro fica o homeeeeeem”… O homem morreu e ficou o burro, isso sim, aqui, paralisado. Vagabunda, putinha de quinta. Das mais bonitas e cheirosas, mas ainda sim, uma bela duma vaca.
Se ela disser que não lhe quer mais
— Peu. Tenho uma coisa séria pra falar pra você.
— Ih, sabia. Você tava vestida demais.
— Hahaha, seu bobo. É sério. Senta aqui e olha pra mim.
— Que foi? Tá com ciúme da Tereza denovo? Eu já disse, amorzinho, ela é só uma colega. Não devia ter te contado que ela veio se declarar pra mim outro dia. Aposto que sua última noite de insônia enchendo a caixa de entrada do meu celular de mensagenzinha de “não consigo dormir”, “ai que ódio” foi porcausa disso…
— Não, não tem nada a ver com a Tê. Eu sei que eu sou muito mais gostosa que ela, hehe. Ai, caramba, é pra ser sério, vamos ser sérios, assim, só por uns minutos, por favor?
— Ué, você que veio com piada. Aliás, a realidade, né? Tereza tem cara de joelho. Essa parou no começo do poema e esqueceu de desenvolver.
— Pára com isso, tadinha. Ela é bonita sim. Mas o que eu tenho pra falar não tem nada a ver com ela. É… sobre a gente… Mais especificamente, sobre mim.
— Ok, o que você tem? Acha que tá grávida de novo?
— Nada disso. Olha, vou ser direta e clara: eu quero terminar.
— Terminar o quê? A faculdade? É melhor então começar a freqüentar as aulas…
— Você sabe muito bem o que eu quero terminar. Nós dois. Já deu o que tinha que dar.
— Deu de menos, né? Não vejo a cor da sua buceta há eras.
— Pára, Pedro! É sério! Eu… tô apaixonada pelo Flávio. E… eu vou ficar com ele. É isso que tava tirando o meu sono. Eu não sabia o que fazer e agora eu sei. A gente tá em crise faz tempo… E isso me ajudou a pensar direito, essa distância entre a gente, sabe? E eu percebi que não te amo mais.
Amor. Totalmente banalizado. Hoje em dia você diz “eu te amo” até pro cobrador, quando ele não tem trocado e te deixa descer mesmo sem pagar. O velho golpe da nota de 50 contos… E nas rádios, no seu mp3, não se ouve falar em outra coisa. Todo mundo falando de amor. Amor meu ovo esquerdo. Amo mamãe, papai, o finado felino Bóris, a Laika me derrubando quando eu chego na casa da minha vó, babando toda a minha camiseta: só isso é amor. Aposto que te ganhei com aquele “eu te amo” depois do cinema, você não largou do meu pescoço, quase morri sufocado… Mas ganhei passe livre pros seus territórios gostosinhos, hehe Nem te amava… Deixa de ser idiota, Pedro! Tá fazendo o quê nesse sofá então, otário?
Se ela disser que não volta mais
— O que cê tá fazendo aqui?
— Vim ver se você tinha recobrado a consciência. Você não consegue viver sem mim. E eu não consigo ficar sem você, admito. Não me venha com Flávio na história. Todo mundo sabe que ele é broxa.
— Hahahaha. Sai daqui antes que eu fale demais…
Vaca.
Se ela disser que não lhe quer mais,
Há há há há
Arranje outra, meu rapaz
Hum hum
Se ele disser que não volta mais
Há há há há
Arranje outra, meu rapaz
Arranjar outra, é isso mesmo… Valeu aí, Jorge Ben (isso é Jorge Ben, né? ele ainda era Ben Jor nessa época?) Cara, sério mesmo que eu to prestando atenção na música do vizinho?
Pois neste mundo maravilhoso vive mal
Quem não vive de amor
Ô ô ô
Olha as margaridas na janela
Você querendo também pode conquistar uma delas
Mundo maravilhoso… Por uma semana eu pensei que ele era assim mesmo… Não conheço nenhuma Margarida e todas as minhas vizinhas de janela são barangas. Deve ser por isso que elas nem se dão ao trabalho de fechar as cortinas quando saem do banho.
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Como alguém pode gostar disso?
Se ela disser que não lhe quer mais,
Arranje outra, meu rapaz
Se ela disser que não volta mais
Arranje outra, meu rapaz
Puta que pariu, que susto! Por um momento pensei que tivesse alguém aqui na sala comigo, falando isso com voz de pajé. Eu, hein, acho que bebi demais. Ou é a marofa que eu tô respirando. Puta que pariu, Rita! Como pode, cara? Idiota, idiota, idiota!
Pois neste mundo maravilhoso vive mal
Quem não vive de amor
Olha as margaridas na janela
Você querendo também pode conquistar uma delas
É a tristeza que some
Morre o burro, fica o homem
Essa bosta tá no repeat?
Morre o burro, fica o homem
Morre o burro, fica o homem
Morre o burro, fica o homem
Se ela disser que não lhe quer mais,
Arranje outra, meu rapaz
Se ele disser que não volta mais
Arranje outra, meu rapaz
Olha as margaridas na janela
Você querendo também pode conquistar uma delas
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Pois neste mundo maravilhoso vive mal
Quem não vive de amor
Ok, eu devo tá muito doido, essa música entrou no meu cérebro, não é possível que eles tenham colocado no repeat. Deve tá rolando um Chico nessa festa já, sempre rola. É um sinal! Levanta, Pedro! Arranje outra, meu rapaz! A Rita nem valia tudo isso. Rita não vale nada. Rita vale um Flávio, aquele tosco. Sabia, loira é problema! Será que a Tereza levou meu fora a sério? Será que ela ainda cai na minha rede? Bom, todo mundo tem que recomeçar de algum lugar, né… Uma Tereza nas mãos vale mais do que uma vida de nerd onanista. Vou ligar pra ela.
Olha as margaridas na janela
Você querendo também pode conquistar uma delas
— Alô?
— Oi, Tê!
— Ahn, quem é? É você, Pedro?
— O próprio! Sabe, tava pensando… Você falou aquilo a sério mesmo? Tipo, de gostar de mim e tal?
— Você tá bêbado não tá? Hahaha! Dá pra sentir o bafo pelos furinhos do telefone!
— E você se importa com isso? Quantas vezes você já não me viu bêbado e mesmo assim me quis? hehe Quer vir pra cá? Sabe como é, fazer uns… trabalhinhos… hehe
— Hahahaha, cara, é impressionante o que a Rita fez com você! Mas mesmo assim não conseguiu baixar essa tua crista. Olha, Pedro, se tem uma coisa pra eu me arrepender nessa vida, foi ter falado aquelas coisas pra você. Depois eu vi o quanto eu fui idiota. Aliás, to ouvindo agora, né?
— Deixa disso, Tetê. Tá rolando uma festinha aqui do lado, daqueles vizinhos firmeza, você conhece um deles, o Gustavo. Bora?
— Pedro, faz um favorzinho?
— O quê?
— Vai se foder! Tô com a Vanessa, não me enche!
Tu tu tu tu tu
Vanessa? Como assim tô com a Vanessa? Ma che… Rá, sabia que aquela mina era sapata! Porra… E agora, Pedro? Caralho… Deixa o mundo parar de girar que eu resolvo o que eu faço… A Rita vai ver… Rita, Ritinha, Ritalina……….
Morre o burro, fica o homem
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá
Tá tá tá rá








on Nov 17th, 2009 at 8:11 am
gostei muitO! O texto tem um ritmo inconstante, mas ficou coerente e gostoso de ler…. a atmosfera tem mais luz tb… será a mudança de endereço? coisas do feng shui! hehehe!
abraço!
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Camila Reply:
November 18th, 2009 at 11:44 pm
Hahaha, sim, eu também senti uma luz nesse que há muito não aparecia nesse blog de putaria e morbidez. Ás vezes é bom dar uma variada. Só tinha textos sorumbáticos em mente (e uns até preparados), mas resolvi dar um respiro. Ou melhor, tomar um fôlego daqueles. Já ouviu a música?
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on Nov 17th, 2009 at 10:21 pm
Tão familiar de quem está há mais de dez anos no meio desse povo de Humanas e suas pirações…
Nota 10!
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on Nov 18th, 2009 at 8:32 am
morre o burro, fica o homem.
Sensacional.
Esse vai e vem da narrativa, quie você descobre depois, é fudido.
Eu quero escrever assim, uma hora.
Isso podia ser a boa história de todo burro morto que permaneceu o homem. Tipo eu.
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on Nov 18th, 2009 at 8:40 pm
idiota, idiota, IDIOTA, IIIDDDIIIOOOTTTTAAAAAA. todos somos. sempre.
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on Nov 22nd, 2009 at 3:12 am
Curioso. Achei mais-ou-menos (o Pedro não convence como “homem”), mas me incomodou, confesso. Acho que foi o tonzinho tpm-aiquemundochato.
Mas se incomodou, gostei.
Vou voltar mais vezes ao Becosangre pra me incomodar.
Bjo!
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Camila S. Reply:
November 22nd, 2009 at 6:29 am
Ah, comentários discordantes! Ok, eu adoro elogios (e quem não gosta?), mas um comentário discordante é sempre bom pra enriquecer o diálogo (que eu espero que exista).
Não entendi ao certo como o Pedro não convence como “homem”: seria por não soar como um homem de verdade, daqueles que tem testículos e pênis e testorona e pêlos saindo por todos os lado, ou como o “homem” que nasceu da morte do burro? No primeiro caso, é justo, já que homem eu não sou, apesar de freqüentemente me disserem que eu tenho uma escrita “masculina” (seja lá o que isso for, todas as mulheres tem que escrever como se fossem a Pollyanna moça, porra?). Se for o “homem” a partir do burro, então não é pra convencer mesmo, pois Pedro é um cabaço. E um cabaço bêbado do gênero chato, como pode-se perceber.
E sinta-se livre pra vir aqui se incomodar quando quiser, a maioria dos textos é feita pra isso mesmo.
Bjos!
P.S.: espero que receba o reply que só curto falar sozinha no twitter. Vou deixar seu blog linkado que, numa passada de olho, me pareceu interessante e digno de se guardar pra further reading.
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Victor Reply:
November 23rd, 2009 at 7:04 pm
Caramba, que coisa boa isso. A conversa tá aberta sim, gostei bastante do teu reply.
Vamo lá, vamo falar sobre a coisa do Pedro-homem. Aliás, antes: não acho que tua escrita seja “masculina” não… muito longe disso. Acho que é feminina demais - despudorada, bocuda, irritada, revoltada e desaforada. Femeniníssima (se há o superlativo).
Sobre a masculinidade da personagem, quis dizer algo mais próximo ao que você entendeu em primeiro lugar. Acho engraçado que teu “homem de verdade” seja o indivíduo “que tem testículos e pênis e testorona e pêlos saindo por todos os lados”. O que eu quis dizer foi que o Pedro é um homem absurdo - um homem visto por uma lente feminina, e controlado por uma máquina feminina, de orgulho ferido. Até aí você se defende bem: “já que homem não sou”, te cabe a justiça de escrever como mulher. Mas o conto é narrado em primeira pessoa por um homem. É aí que surge o ruído, entende? Existe uma mulher querendo ser homem no jeitão canalha do Pedro - e não simplesmente um homem canalha sendo um homem canalha.
Espero que a coisa esteja clara.
Porra (só pra contrapor o eventual rococó).
Um beijão, Camila.
Pula lá no Quadrado Vermelho mesmo, viu? Se não incomodar me avisa que eu tento trabalhar mais.
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Camila S. Reply:
November 23rd, 2009 at 9:03 pm
Victor,
sobre o “homem de verdade” foi mais uma explicação puramente física mesmo, pra explicar que homem seria. E é, eu tentei me colocar no lugar de um homem de orgulho ferido bêbabo pensando nas cagadas que fez e/ou deixou de fazer, mais um fluxo de consciência mesmo. Mas pelo jeito não sou muito convincente como homem, ainda bem que não preciso disso, he Me esforçarei mais da próxima vez.
Beijos!
on Nov 23rd, 2009 at 3:00 am
Fui feito uma retardada procurar na pasta do Ben Jor essa música e dei um belo #epicfail. Não desisti, procure na internet toda e finalmente consegui ouvir a mardita. Morre o burro, fica o homem. Creio que, no caso do nosso querido Pedro, morre o homem e fica o burro. Fato.
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on Nov 23rd, 2009 at 9:29 pm
Não pode dar reply depois da quarta caixa de diálogo consecutiva, né?
Haha.
Ó, toca o barco. Cê escreve otimamente e tem uma atitude sedutora, no sentido mais bacana possível.
O Becosangre é ótimo!
Beijão.
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on Nov 28th, 2009 at 4:19 pm
curto mto suas histórias.
ah… rachay com isso “Deve tá rolando um Chico nessa festa já, sempre rola.”
:P
bjo
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