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La Gioconda 2009

Esta não é a Gioconda, tampouco uma pintura, mas é moderno e é Nicola Constantino

Esta não é a Gioconda, tampouco uma pintura, mas é moderno e é Nicola Constantino

Século XXI e Veneza e Florença são invadidas por câmeras fotográficas. Arquitetura antiga me encanta, amorzinho. Mas gosto mesmo do nosso condomínio moderninho, não sei o que faria sem os nossos porteiros pra receber as encomendas enquanto estamos em nossos escritórios perfeitamente climatizados. Quando é que voltamos?, o gato já deve estar dando trabalho ao pessoal da pet shop. Nossa, que ambientes imensos, luxuosos, morar num desses hoje em dia seria uma nota. Sem falar no espaço, quanto espaço! Minha suspeita era apenas uma suspeita, desceu hoje, graças aos céus! Vamos ao museu?

E San Paolo, capital financeira desse nosso país austral-americano continua em seu ritmo de formigueiro. Não esqueceu de pagar a Neide não, né? Vamos dar um passeiozinho de gôndola, talvez andar numa dessas carruagens, super romântico! Nossa, como é devagar! Estou aflita! Vamos de metrô!

Aeroporto, finalmente em casa. Não podemos deixar de baixar as fotos pro computador. Maria vai se encher de inveja! Rádio-táxi para não pagar mais do que o devido. A Europa é tão linda. Temos de voltar.

Ruas de paralelpípedos, tão nostálgico. Mas impraticável andar de carro. Tomara que tenham asfaltado novamente aquele trecho, sempre que chove fica aquele buraco horrível e o nosso carro cada vez mais arranhado. Não sei o que faria sem ele. O transporte público é uma droga. Não tenho paciência. Cadê nossos souvenires?

E San Paolo, a capital do capital da América Austral. Largas avenidas, asfalto, o menino no farol — não é divertimento, é sobrevivência. Não dá dinheiro pra ele não, vai gastar em droga.

San Paolo, de Europa só tens o Jardim. Alguns teimosos imitam a arquitetura alemã, que bobos. Esses tetos nunca verão neve. San Paolo, faço meu caminho de metrô e ônibus. Metrô é modernidade, por baixo da terra não tem farol, não tem malabarista, não tem paisagem — dá na mesma, é tudo concreto.

Ah, esse povo, não se sabe ao certo de onde veio. As aves que aqui gorgeiam trazem a melodia que olvida as diferenças fenotípicas. Em terra em que se plantando tudo dá, o alemão se deleita nos quadris das negrinhas e as faces alvas se afogueam correndo atrás das indiazinhas. Branco com branco só em raros casos: aqui a festa é na floresta.

Ah, as carruagens. Nada de ineditismo, estão lá há anos. E alguns ônibus se assemelham bastante ao seu ritmo sincopado, lento e chucro. Espera só a ladeira. E numa dessas carruagens enlatadas comandadas por cavalos mecânicos lembro daquele tempo tão bonito que está guardado em ambientes tão climatizados quanto nossos escritórios, com linhas invisíveis que apitam quando tentamos tocá-los. Aqui o apito é velado e quase inaudível. Transmite-se mais pelo olhar que pelo som. De mal tom sair tocando desconhecidos, sabe quantas doenças podem se esconder por trás de uma brotoeja?

Cortaram nossas musas pela metade, reduziram-se as calorias, açúcar é pecado. Ah que sina essa calça 42, vou entrar naquele programa da academia. Ninguém te amará com essa barriguinha, querida, entoam em uníssono as revistas a transbordar das bancas.

Mas, retomando-se o controle da carruagem: lá está ela denovo. Os desconhecidos familiares, sempre no mesmo horário, sempre o mesmo itinerário. Enlatados estamos todos nós, programas televisivos sem nada a acrescentar, meio de transporte quente e fétido que nos conduz mais ou menos ao nosso destino. Vidinha de formiga. Mas ela sorri. E denovo me transporto a tempos áureos onde nem sequer existíamos como terra nostra. Italianada, com certeza. Pele clara que a claridade excessiva não permite o efeito chiaroscuro, algumas sardas e cabelo de avelã. Não são os anjos a sussurar aos seus ouvidos, mas misteriosa seleção musical armazenada em códigos binários em um aparelho tão pequeno, feito de plástico e cobre, mas tão caro. Corpo de Vênus renascentista, não fosse nossa época, estaria enquadrada em telas lisonjeiras, desnuda, sem essa roupa de escritório. Ao longo do caminho tenho apenas a visão da nuca coberta pelos fios asob determinada luz aloirados, um perfil ou outro raramente apreendido.

Nada demais, nada que me atraísse tanto olhar, não fosse um pequeno detalhe: ela sorri. Não o tempo todo, claro, a vida nos exige dureza e cenho franzido. Mas chega enfim o seu ponto final, mais ou menos perto de seu destino como do meu, e, ao apertar o sinal de descida, ela sorri. Primeiro, apenas um espasmo das abas da boca de lábios nem finos nem grossos. Mas, à medida que a carruagem desacelera, o sorriso se abre, vêem-se alguns dentes. Ela sorri. Solo chiaro, carina. E, acompanhada ou não, o sorriso se sustenta até perder de vista, pois a roda deve girar e há tantos pontos pela frente, suspira o motorista longínquo em seus pensamentos de formiga.

E até a chegada do meu ponto, ao qual não desço sorrindo, pois minha alma está perdida no spleen do Romantismo, a imagem não me sai da cabeça. Volto aos museus que nunca adentrei, lembro das imagens impressas em livros e projetadas nas telas digitais e a questão se faz presente até se dissipar no estalido do portão eletrõnico: por quem sorriem as musas? Mistério pincelado em lábios nus, será algum dia decifrado?

Isto é Bouguereau, que nem é italiano nem classicamente Renascentista, mas se parece mais com a mocinha.

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1 Comment on “La Gioconda 2009”

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    on Nov 27th, 2009 at 9:14 am

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