Palavras salpicadas com canela junto a pudim de leite e um expresso
para D.
Meu amor, ao fim da primeira hora do dia 15 do último mês do último ano de uma década de um século passado, urrou o primeiro suspiro. E ao dia 15 desse último mês desse último ano de uma década de um novo século, dobrará o 15 inscrito em sua linha da vida e, ao menos estranho seria, se nesse momento não suspirasse sutilmente a fumaça de uma tacada de sorte, prata.
Meu amor tem os olhos tão mutantes quanto si próprio, reflexos da alma que se debate em tão bela e delgada estrutura compulsora do meu tocar, tocar e tocar. Vive numa torre pela qual se tem acesso subindo em espiral metálica, paredes pouco nuas em ambiente de tanta nudez. Trilha em verso e prosa dedos rápidos ao digitar palavras mágicas, que mesmo a outras dirigidas me enchem os olhos.
Meu amor vive rodeado de estátuas de cera que com os olhos coléricos da carranca do kabuki com fervor desejo derreter, e de todo o fluido residual formar uma única vela para transformar em oferenda de santerias malogrentas, que trazem lágrima e discórdia à união daqueles que por outros são invejados. Meu coração selvagem e sanguinário não entende a transmutação, por ser acostumado a atirar os fetos malformados aos porcos famintos que habitam o labirinto do olvido rancoroso. Mas nada posso fazer, e disso devo me convencer para não sucumbir aos bueiros negros que não merecem tragar o meu amor. Pois o reinado agora é meu, e meus pés líquidos almejam tornar-se sólida estrutura em patamar móvel, pois de nada adianta estarmos presos a solo de chumbo.
Meu amor é uma constelação de pontos coloridos em tela branca às vezes tão irreal que não sinto outro impulso além de tocá-la com todos os sentidos possíveis, para assegurar-me de que não é etéreo sonho apenas. Se move, é quente, é tela lisa encoberta em partes por ramos nos quais meus dedos brincam como crianças inocentes que não sentem a necessidade de deixar migalhas para traçar o caminho da volta. E os braços que me envolvem têm poder calmante superior ao mais potente dos benzodiazepínicos. De seu corpo minha língua degusta gama de sabores intraduzíveis em palavras, narcótico natural que me desperta no sono dos bem amados.
Meu amor diz que a ninguém pertence ou pertencerá, mas em meu mundo é meu e meu mundo é meu amor. Surgiu de repente, poeira de supernova a tirar-me de poço profundo rumo ao infinito das galáxias, criando-me minha e dele sou, por mais sujo que possa parecer. Mas poeira não é de todo sujeita, e brilha, pois meu amor faz-me querer ser mais do que imagino, me liberta, e é meu, e é amor, não só por ser meu. Meu amor é livre para andar ao meu lado até quando bem entender, por mais que o pensamento de sua ausência me faça querer pôr fim aos suspiros que alimentam meus polutos pulmões.
Meu amor tem a voz que ecoa em minhas entranhas, e consegue se manter sereno perante a minha histeria gritante de mulher louca e confusa, sem nunca fazer do grito um eco. Meu amor são reis hebreus de nome vidas, mas com sotaque gringo de filme de cowboy. E distante é a sua torre, na terra do trem que depois que daz onze partir, só amanhã de manhã, onde as noites são vazias e perigosas, com aviões baixos fazendo coro ao apito do vigilante noturno.
Meu amor, só quero te amar e é só o que consigo, minhas vidas confluindo em denso rio de fluidos naturais, rio do amor que chamo de meu e em minhas veias corre intenso como foi desde que de meu amor não era assim chamado.









on Dec 9th, 2009 at 1:07 am
o amor desexplica tudo. lindo, e adorei a fotos. Essa do reflexo na íris ficou muito louca, me lembrou aquele desenho clássico do escher segurando a bola.
beijos
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on Dec 9th, 2009 at 7:35 pm
Adorei esse texto! Sincero e lírico demais! Sentimento de amor cheio de belos arabescos. Parabéns - por escrever e por amar!
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on Dec 11th, 2009 at 11:36 am
sem palavras pra esse post…
quanto amor!
(L)
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on Dec 12th, 2009 at 8:50 am
Agradesço às profundezas de tanta outridade minha, meu amor. Você é!
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