Primeiro Império
Ovos, pulpas, larvas e moscas, o ciclo completo da vida derivada do podre dividia o espaço com os fungos cujas cores descolorem a paleta das frutas e legumes. O cheiro da colônia de férias impregnava os tecidos curtidos pelo vento que apenas secaria se as roupas fossem substituídas, mas há tempos eram as mesmas.
Era de se estranhar que a pequena porção de terra envasada no parapeito da janela não houvesse ainda se tornado propriedade de ervas daninhas, mas a observação atenta dos arredores já anunciava que, em meio ao concreto, não sobrava espaço para a vida, já totalmente drenada pela planta seca que em vão tentara sobreviver; além do que, àquela altura, as sementes paraquedistas precisariam renunciar à gravidade para germinar.
O território era apenas das formas de vida marginalizadas e repelidas, império que em pouco tempo cumpriria o seu destino decadente rumo ao desmoronamento por falta de recursos. Canibalismo e morte lenta ou o fim rápido: eram essas as opções dos seres abandonados por seu deus, que nas horas finais não ofereceria a si mesmo como oferenda misericordiosa, pois dali estava longe, para nunca mais voltar.
Segundo Império
O cheiro de putrefação atiçou a ira dos deuses. Sim, eles retornaram, até a vida divina é injusta. Um erro tal descontrole. Violentamente, cada casa, cada casta foi removida e jogada às bocas destruidoras. Os bravos resistentes que se apegavam à superfície lisa e branca daquele pequeno cosmos foram sumariamente mortos por rajadas desinfetantes, esfregados, expatriados, reduzidos a nada. Higienização orgânica. Daquele império só sobrou a inócua terra envasada com a planta morta, de marco às gerações seguintes.
Mas a reforma se limitou a isso. O deus designado aos cuidados do império pouco se importava com aquele lugar e suas obrigações, estando sua cabeça, e até mesmo a sua essência bailando em outras coordenadas. Fez-se a limpeza primordial, mas onde que não se havia feito revoluções não fora incomodado. Só se acumulavam coisas, trazidas de fora. O império do caos. Parecia até não haver deus, ou deuses. Sua presença se denunciava por mudanças discretas de tempos em tempos, acúmulos, adições, subtrações.
O deus estava mais preocupado consigo mesmo para se ligar ao cosmos. Deixava que tudo acontecesse ao modo que o vento desejasse. Era um aquário de formigas. Mas não havia formigas, a princípio. Apenas as moscas, algumas sobreviventes ou que renasciam das cinzas do lixo mal recolhido, a primeira barata que foi devidamente exterminada, os pernilongos que finalmente surgiam com o calor do prelúdio do fim. Pó e cinzas por toda parte, pele morta em fios que se acumulavam em torno do ralo, quase formando uma nova cabeça, um novo deus, que quem sabe seria talvez um pouco menos egoísta, já que seria desprovido de eu.
E nesse ambiente calmo, novas formas de vida organizavam uma revolução mais inteligente que a do primeiro império. Era silenciosa, às escondidas, passando-se desapercebida. Aproveitava-se das frestas escondidas pela necessidade de preservação diante do mau tempo. Como surgiam não se sabe, já que considerava-se os arredores estéreis, mas estavam lá. Não só no mofo das paredes do banheiro, que já era justificável e previsível, sobrevivia por pura falta de vontade de ser eliminada. Aquela era uma forma de vida estúpida, facilmente removível, com uma só esfregada e já não estaria mais lá, portanto, não lhe dava muita importância, o deus ególatra. Mas lá, longe de seus olhos temerosos pela água que não cessava, crescia a nova revolução. Seus pilares eram uma pequena e inexpressiva planta, quebrada pelo movimento da porta ao primeiro raio de sol; e um ser, que poderia ao mesmo tempo ser um ou dois, ou quiçá vários, mas que com certeza era da mesma espécie: alaranjado, cor de manga, tinha até uns fiapos.
O deus ficou um tanto quanto preocupado, mas nada fez. Deixou a varanda aberta para que o sol cuidasse daquilo que talvez só tivesse surgido por conta da umidade. Mal sabia que estava diante da possibilidade do surgimento de um terceiro império… Ou não?










on Feb 3rd, 2010 at 1:01 pm
que texto maravilhoso… gostei bastante das palavras que ilustram de maneira muito boa a urbanidade presente na autora. haha
taí, se eu pudesse entitula-lo seria: saga-cidade!
um beijo gigantesco
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